• Tai Chi Chuan na Academia Imoto

    Tai Chi Chuan na Academia Imoto

    O TAI CHI CHUAN (pronuncia-se Tai Ti Tchuan) é a mais estranha de todas as artes marciais chinesas. Outrora conhecido pelo nome de “Hao” e “Chang Chuan” (significando a arte do punho solto, longo e estendido em homenagem ao fluxo contínuo e das fortes correntezas do Rio Yang-Tsé), encantou o imperador ao ser demonstrado no palácio manchu em 1850 e passou a ser conhecido pelo seu nome atual que significa “Punho Supremo”. Seu princípio fundamental contradiz as nossas intuições sobre as lutas, conforme declarou um lendário mestre do Tai Chi:

    Existem muitas artes de combate. Embora elas tenham diferentes formas, os fortes continuam dominando os fracos e o lento perdendo para o rápido. Mas força e velocidade são talentos físicos naturais e não o resultado de uma compreensão superior. Quanto à força é dito que “500 gramas podem neutralizar mil quilos”, logo força física não pode ser o derradeiro trunfo. E será que foi devido à rapidez que um idoso conseguiu derrotar uma gangue de jovens?

    — Wang Zongyue.

    Depois de iniciar no estilo Li de Tai Chi do Mestre Wang Techeng em 1994, comecei a praticar também conforme a linhagem do Professor Cheng Manching (1902-1975). Estes e todos os demais sistemas de Tai Chi se baseiam na observação dos antigos chineses sobre uma lei da Natureza que permeia, ordena e aumenta a complexidade e a integração da matéria no universo. Os ancestrais dos chineses chamaram esta lei de “Tao”, que significa “Caminho”, progressão de um lugar para outro, enquanto os cientistas modernos a denominaram de “Entropia Negativa”, “Negentropia” ou “Sintropia” (vide nota explicativa no final deste artigo).

    Através de séculos de conflitos, esse princípio de aglutinar os elementos — que faz da entropia uma aliada — tem sido aproveitado, refinado, amplificado e implantado nas artes marciais e terapias medicinais. Com o advento das armas de fogo nas ruas e nas guerras, o foco em combate desarmado foi perdendo a importância no Tai Chi e a ênfase voltou para seu lado meditativo nas experiências de consciência unificada que resultam do cultivo (Chi Kung) e da percepção direta desta energia universal atuando no sistema nervoso.

    Para atender a este objetivo de transcendência, o mais importante requisito para o treinamento do Tai Chi é uma qualidade chamada “Song” em chinês, e que foi traduzida parcialmente como “relaxamento” quando na raiz da palavra significa “soltura”, “maleabilidade” (saiba mais no livro “Mastering Yang Style Taijiquan” de Fu Zhongwen e tradução de Louis Swaim). Você nunca deve estar tenso ou tentar usar a força muscular na prática individual, ao lidar com um parceiro de treino ou adversário real. Parece um contrassenso. Como uma ação com função marcial pode ser executada com tônus mas sem apelar para a força física? No Tai Chi há uma teoria para explicar isso: embora uma força mecânica muito suave e parecida a uma “cutucada” possa ser usada como uma espécie de gatilho e ignição, os surpreendentes efeitos cinéticos que tal toque causa ao ser aplicado por um praticante avançado de Tai Chi não são resultado de esforço muscular comum.

    Fazer pipoca pode ser uma boa analogia para explicar esse fenômeno em que um leve toque gera tamanha sinergia motora a ponto de lançar seu parceiro a metros de distância ou imobilizá-lo contra o solo. Quando a temperatura atinge mais de 150ºC, a água retida no interior da casca dura do grão de milho se aquece e expande como em uma minúscula panela de pressão, acionando um movimento explosivo de vapor, lançando o amido e as fibras de dentro para fora. O calor é apenas o agente desencadeante. O estouro é decorrente de um simples processo químico ativado no centro da semente de milho (por outro lado, não importa o quanto você aqueça a soja, não vai obter este resultado). Logo, sem a iniciação correta para ajudar o praticante a criar as condições para ocorrer essa “combustão”, seus esforços serão desperdiçados.

    Então, o corpo do seu parceiro (o receptor) na verdade está sendo movido pela própria tensão interior dele, que é acionada por um sutil estímulo na forma de uma onda de impulsos que você (o emissor) lhe transmite. Essa ação imperceptível a olho nu excita os receptores de sinais nervosos do seu parceiro criando uma ressonância entre os dois e causando a reação involuntária de contração e descontração no corpo do receptor. Nas mãos sensíveis de um especialista no Tai Chi tal reação será redirecionada e reaproveitada para causar uma queda violenta ou facilitar o acesso a uma área vulnerável do adversário. Portanto, a primeira tarefa no Tai Chi é mental no sentido de reprogramar e substituir a força física muscular de empurrar e puxar que usamos normalmente, por essa outra alternativa de emissão de energia cinética independente daquela força bruta.

     

    PODER SUAVE

    A principal prática do Tai Chi é uma sequência de 37 posturas, com movimentos lentos de transição. Essa série ou “Forma” é realizada sozinha, como no boxe-sombra dos pugilistas. Famosos gurus indianos relatam que originalmente os iogues também praticavam uma coreografia de posturas (ásanas) encadeadas entre si como no Tai Chi e nos passos de dança. Um texto mais aprofundado sobre as posturas será apresentado em outro artigo. Por enquanto discutirei sobre a seção do treinamento em duplas do Tai Chi com o exercício do Tui Shou, popularmente conhecido — e mais uma vez erroneamente traduzido — como “Empurrar (sic) as Mãos” (Pushing Hands) e que por isso prefiro chamar de CONTATO LIVRE.

    Neste exercício dois parceiros tentam desequilibrar um ao outro com o mínimo de movimento. É cooperativo porque seguimos regras para manter a segurança e prolongar o tempo de prática e aprendizado. Libertos das restrições da competição esportiva, buscamos explorar qualquer sinal de rigidez muscular no parceiro e ele em nossos corpos com ambos tentando obrigar o outro a dar um passo para recuperar o equilíbrio. Isso mantém a prática dentro dos níveis da realidade marcial e tem valor para a autodefesa quando é vital se manter de pé e firme. Esse conceito de treino se assemelha com a prática do Jiu-Jítsu, em que se busca primeiro colar-se ao corpo do oponente buscando “sentir” suas intenções e assim ser capaz de causar e/ou aproveitar o desequilíbrio antes de se aplicar as alavancas.

    Parece simples do ponto de vista físico, mas esse exercício guarda alguns elementos interessantes da mais profunda filosofia do Tai Chi. O mais importante deles como se sabe foi traduzido parcialmente como “relaxamento”. A tensão habitual carregada em seu corpo e/ou qualquer tentativa de usar a força muscular bruta pode ser facilmente detectada e anulada por um parceiro hábil e sensível. Então você deve evitar essas duas falhas, de tensão inconsciente e uso da força, dissolvendo-as em sua mente e no seu corpo por meio de um forte intento.

    Além disso, outras tradições de Tai Chi ensinam manobras para a manipulação física das articulações do seu parceiro organizadas como um programa de técnicas de ataques e defesas. Entretanto a didática que utilizo não emprega técnicas decoradas. Muitas horas preciosas seriam gastas tentando memorizar todas as possibilidades de ataques, defesas, contra-ataques e contra-contra-ataques. Em vez disso, treinamos buscando desenvolver primeiro um corpo estruturalmente bem organizado e sensível, marcialmente “fechado” e que irá nos alertar a tempo para antecipar e neutralizar qualquer tipo de movimento do nosso parceiro.

    “Desequilibrar” o parceiro significa forçar ele ou ela a dar um ou mais passos para recuperar a estabilidade. Geralmente não é necessário lançar o parceiro a vários metros de distância nem jogá-lo contra a parede. É suficiente usar um toque súbito para afetar o equilíbrio dele, apenas o mínimo para forçá-lo a dar um ou dois passos. Isso mantém a prática segura e divertida, bem como permite o cultivo de um controle milimétrico da força.

     

    BOXE SOMBRA

    Mais importante que o movimento final de desequilíbrio é o conceito do “sombreamento”. Mencionei que a prática da Forma curta do Tai Chi com as suas 37 posturas é semelhante ao boxe-sombra que os pugilistas praticam. Mas na prática do Contato Livre/Tui Shou, o sombreamento significa aderir levemente aos braços ou corpo do parceiro não importa como ele ou ela se mova. Assim como é impossível fugir ou desconectar seu corpo da sua própria sombra na luz do sol, deve ser impossível para o seu parceiro fazer qualquer movimento que você não antecipou e pré-imaginou (ou pressentiu).

    Desta forma, o poder do seu parceiro nunca encontrará qualquer obstáculo ou resistência e por isso poderá ser anulado na raiz da intenção por trás do movimento, no efeito ideomotor que precede toda ação muscular. Então, ao invés de ser uma luta da força contra a força, ou um espetáculo de manobras acrobáticas, o Tui Shou do Professor Cheng Manching é um exercício onde os princípios contra-intuitivos e incríveis do Tai Chi de que 500 gramas derrotam uma tonelada, o suave vence o rígido e o lento supera o rápido podem ser investigados, testados e provados. Naturalmente, se ambos os parceiros nunca usarem força ou esboçarem qualquer tensão, essa capacidade de ativar o EFEITO SINOMOTOR (sinergizando reflexos instintivos no oponente) será anulada. Mas, embora isso seja verdadeiro na teoria, na vida real você e seus parceiros geralmente tendem a trazer um excesso de tensão ao exercício, e isso servirá de matéria-prima para aprender a lidar com a força e a controlá-la com a mente.

     

    REALIDADE MARCIAL

    Lembre-se sempre de que o Contato Livre não é uma luta ou sparring. Uma mentalidade de luta introduz um elemento de perigo e uma psicologia de orgulho e medo (dependendo de quão dominante você pensa que é). Mais importante, uma mente ocupada em competir prejudica o desenvolvimento do poder interior. É essencial manter uma atitude de leveza e espírito de lazer, enquanto simultaneamente se envolve na prática com seriedade.

    E o Contato Livre não é esporte. Nossa escola não enfatiza torneios de “empurrar-mãos”, porque nossos objetivos são diferentes. Em um esporte só importa vencer. Isso é bom para o esporte, mas para o desenvolvimento interno a necessidade de vencer polui nossa sensibilidade para detectar pistas sutis que surgem na interação em duplas. Esses microssinais, se percebidos e estimulados, podem evoluir para grandes avanços. Durante uma sessão, estamos mais interessados em “assimilar” do que “ganhar”.

    Dito isto, no entanto, é verdade que o Tai Chi já foi temido como uma disciplina combativa, e é interessante examinar o Contato Livre sob essa ótica. Por isso, um elemento que muitas vezes é incompreendido é a exigência de se manter os pés fixos no início. Ser forçado a mover um dos pés (para manter o equilíbrio) ou deliberadamente dar um passo (para melhor se posicionar para empurrar seu parceiro) é considerado uma falha.

    O princípio de se colocar propositalmente em “handicap”, em desvantagem, tem levado muitos a duvidarem da sua aplicação prática. Fora do mundo das artes marciais internas como o Tai Chi, a ideia de manter os pés aparentemente parados em uma postura descontraída parece vulnerabilidade. Para a maioria das pessoas o movimento é o primeiro princípio de qualquer arte marcial ou esporte de combate. Portanto, seria absurdo se fixar em tal limitação equivocada? Também, dentro do mundo do Tai Chi, a ênfase em manter os pés fixos às vezes leva a outra falácia: um excesso da ênfase no “torcer” e “girar” em vez de “estender” e “espiralar”.

    Quanto à primeira preocupação sobre realismo versus artificialidade dos pés estacionados, lembramos que o Contato Livre não é uma luta ou exercício para se aplicar técnicas. É mais um teste de atributos buscando consolidar a expressão da energia interna, que pode ser usada para muitos outros propósitos além dos marciais, ou simplesmente para a admiração e o prazer de praticar a arte pela arte. Podemos comparar o Contato Livre à ginástica de flexão de braços. Flexões de braços não servem diretamente para o combate, ainda assim os fuzileiros navais e equipes policiais as realizam constantemente para resistência física e mental. Isso é desenvolvimento de atributo. Então, como um exercício de atributo, não há nenhum problema no requisito de pé parado.

    Essa exigência de se manter os pés parados é fundamental para a finalidade do exercício. Se na defesa você sempre puder se mover e se afastar do ímpeto do seu oponente e no ataque entrar em ângulos e posições privilegiadas mecanicamente, seu corpo nunca vai adquirir a necessária sensibilidade e percepção refinada para dominar essa arte.

     

    O ERRO DO ENRAIZAMENTO

    Outra falácia praticada no Tai Chi é a ênfase excessiva no tão chamado “enraizamento” em que o praticante tenta resistir ao empurrão de um ou vários atacantes em fila sem mexer sua base. A regra do pé fixo tem levado muitas pessoas a acreditar que a maior habilidade de Tai Chi é ser capaz de “ficar firme como uma montanha” não importa quanta força seja aplicada sobre você. Um suposto mestre no enraizamento ficaria plantado no lugar mesmo diante da colisão de um jogador de futebol americano.

    Mas esse é outro equívoco na prática. Congelar-se em uma postura geralmente induz tensão física. Uma vez que o relaxamento é a primeira diretriz do Tai Chi visando criar um eixo dinâmico e um centro de massa e gravidade “vivos”, é melhor investir o seu tempo de treinamento trabalhando os movimentos e posturas essenciais para soltar suas articulações e absorver a energia lançada na sua direção em diversos ângulos.

    Essa resiliência acontece quando você usa seu relaxamento para levemente se aderir ao corpo do seu parceiro, não importa como ele se mova.

    A exigência de pés estacionários sustenta duas regras do Contato Livre:

    • 1. Remover toda tensão do seu próprio corpo, criando espaço para absorver o poder do seu parceiro;
    • 2. Explorar qualquer variação de velocidade, tônus ou zona de tensão/folga que detectar no corpo do seu parceiro, e usá-las como alavanca ou alça para desequilibrá-lo.

    Você aprende a aplicar essas táticas através do sombreamento, ou seja, acompanhando perfeitamente o seu parceiro em cada movimento, sem atraso ou pressa.

    Muitas escolas de Tai Chi enfatizam uma forma coreografada de Tui Shou. Nesses treinos, os parceiros se envolvem em um padrão pré-estabelecido de movimentos, continuamente circulando os braços e o tronco através de certas posturas de ataque e defesa. Isto pode ser um bom aquecimento para as articulações, mas nunca será capaz de ensinar a sensibilidade espontânea à força súbita que se desenvolve com o método de Contato Livre que praticamos no Tai Chi das 37 Posturas.

     

    CONCLUSÃO

    Este artigo descreve o sistema de treinamento exclusivo do Tai Chi que ministro na Academia Imoto. Mas a inusitada e fascinante habilidade que se desenvolve com ele tem sido reconhecida e desenvolvida por indivíduos especiais de várias épocas e lugares. No contexto japonês é conveniente mencionar Yukiyoshi Sagawa (1902-1998), um grande mestre de Daito Ryu Aikijujutsu, a arte marcial samurai que deu origem ao Aikido. Embora a prática e as técnicas do Daito Ryu e do Tai Chi sejam diferentes é óbvio que a habilidade referida como “AIKI” por Sagawa Sensei equivale ao EFEITO SINOMOTOR empregado no Tai Chi com o nome de “JING”.

    Algumas dos ensinamentos de Sagawa Sensei tornam esta similaridade bem óbvia. E os conselhos dele concordam perfeitamente com os ensinamentos dos mestres do Tai Chi Chuan da tradição da família de Yang Chengfu (1883-1936). Segue algumas dessas citações de Sagawa compiladas no livro “Transparent Power” pelo Prof. Tatsuo Kimura:

    “Quando você eliminar toda a força do seu corpo, você imediatamente perceberá os pontos fracos do seu oponente. Não se oponha ao poder dele.”

    “O verdadeiro poder do Aiki desequilibra o adversário suavemente e silenciosamente.”

    “É preciso um longo período de prática para impregnar seu corpo com a capacidade de causar desequilíbrio corretamente. Se ficar muito preocupado em vencer, vai contrair o mau hábito de confiar na tensão da força física.”

    “Quem ainda não preparou a parte inferior do corpo corretamente vai acabar confiando na força dos ombros. Somente as pessoas que praticam o movimento suave têm o potencial para se tornar hábeis. Quem flexiona os músculos e usa força é um caso perdido.”

    As duas palavras que coloquei em negrito nessa última citação servem como síntese perfeita do Tai Chi Chuan do Prof. Cheng Manching: movimento suave.

     

    NOTA:

    Entropia é a tendência dos sistemas para o desgaste, a desagregação, o afrouxamento dos padrões e um aumento do caos. A entropia decompõem a matéria em estados mais simples e aumenta com o decorrer do tempo. Esse processo degenerativo só diminui quando ocorre um aumento de informação assimilada que é a base da configuração e da ordem.

    Pela física (Segunda Lei da Termodinâmica), a entropia caracteriza um sistema fechado que se isola e não se relaciona energeticamente com o meio ambiente levando-o invariavelmente à desintegração.

    Se a entropia tende a desorganização, é necessário abrir o sistema e reabastecê-lo com energia e informações provenientes de fontes externas a fim de transformá-lo para manter a sua existência. A esse processo dá-se o nome de Entropia Negativa, Negentropia ou Sintropia (ou “Tao”).

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