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Academia Imoto

Tão logo surgiu a sua consciência você soube que estava preso a um labirinto existencial do qual precisava desesperadamente se libertar.

Vamos recapitular.

Você nasceu despejado em um local desconhecido, cercado por estranhos, sem posses, incapaz de falar e andar, nu e banhado em sangue. Exposto em toda a sua fraqueza e desamparo.

Mais tarde você começou a crescer em outro ambiente que se tornou gradualmente familiar. Transcorrido alguns anos, se esqueceu de que continua sendo um náufrago abandonado em uma ilha desconhecida.

A diferença é que você não está sozinho.

Há milhões e bilhões na mesma situação, uns mais ou menos conformados com esta hospedagem forçada, ocupados demais para refletir sobre isso. Normalmente em menos de duas décadas nos acostumamos e nos resignamos com a ignorância, cercados por perguntas sem respostas. Quando se está acompanhado, é mais fácil suportar as dificuldades: antes perdido e alienado em grupo do que isolado.

Na proximidade da morte a lembrança do abandono e solidão inicial retornam com a solidez de uma muralha. E então, vencidos pelos anos, o drama encenado termina. Cerram as cortinas, o palco é desmontado e remontado para outra temporada com novos atores ensaiando a mesma peça. Enquanto isso o significado, o sentido da vida, continua intocável e indecifrável.

Este tem sido nosso amanhecer coletivo…


“Tinder”, por Kenne Gregóire (2017)

BUSCAR E ENCONTRAR

É vital achar uma saída destes dilemas que drenam o sistema nervoso e nos sabotam sem parar com sofrimento, culpa, pesar e insatisfação.

A meta é viver em plenitude em vez de vagar angustiado e sem rumo com a multidão de cegos reclamando e gritando aos ventos. Suas inferências e julgamentos em cada bifurcação existencial devem manter o foco na sua rota enquanto caminha feliz e vigilante por corredores e pavilhões incógnitos. Para não se iludir com as respostas em preto-e-branco de terceiros ou se distrair pintando-as com uma nova cor, conheça o mapa do território onde nasceu e saberá para onde está indo.

O LABIRINTO DE UM É O LABIRINTO DE TODOS

Antes de prosseguir, cabe salientar que todo a nossa linguagem, e consequentemente o nosso pensamento, é permeada por analogias e metáforas. Nossas conversas cotidianas e as nossas estimativas triviais, e os modos como expressamos a arte e a ciência dependem de comparações empregadas em níveis distintos. Há analogias e metáforas sutis, incompletas e enigmáticas, porém figuras de linguagem podem ser elevadas ao patamar do máximo rigor matemático. O fato é que o pensamento lateral resultante dessa didática de comunicação pode desempenhar uma função na descoberta da solução de uma questão e, por isso, nunca despreze nenhuma análise comparativa, por mais fantasiosa que pareça à primeira vista.

Assim, tomando emprestado como modelo os arquétipos da mitologia grega, recordemos o rei Minos que mandou construir um labirinto para proteger a entrada do seu palácio.

Dédalo, o arquiteto daquela obra colossal, inspirou-se em uma construção egípcia e construiu um padrão de corredores capaz de confundir o senso de direção de quem se atrevesse a entrar ali.

Posteriormente a esposa semideusa do rei gerou uma criança, meio homem, meio touro, fruto de uma traição. O arquiteto real, incumbido por ela para esconder este herdeiro maldito, escolheu justamente o seu labirinto.

Minos descobriu a conspiração e, como punição, exilou Dédalo e seu filho Ícaro no labirinto junto com a criança bastarda que futuramente seria o temido e monstruoso Minotauro. Conhecedor da impossibilidade de sair do seu próprio labirinto, o engenhoso arquiteto construiu dois pares de asas fugindo espetacularmente dessa prisão.

A lenda terminaria aqui se outro herói não tivesse se aventurado naquele espaço sombrio.

O guerreiro chamado Teseu desafiou o Minotauro que caçava impiedosamente as suas jovens vítimas no labirinto. Teseu esperava destronar o rei tirano e acabar com os sacrifícios periódicos do seu povo. Armado com uma espada e um novelo de lã, Teseu se tornou o terceiro homem a escapar do labirinto.

Estes mitos se desdobram em várias outras estórias que se entrelaçam umas com as outras, e o que nos interessa é a sua metáfora com os caminhos circulares que percorremos em busca de uma saída, de uma “salvação” prometida.

O labirinto não é um monumento talhado na rocha ou uma provação que escolhemos padecer para testar a nossa capacidade de raciocínio, paciência e resistência à dor. O labirinto tratado aqui é o mais antigo, tão velho quanto a presença dos primeiros seres humanos na Terra. É individual e construído em camadas sobre os alicerces e ruínas de labirintos anteriores. O labirinto é uma torre de Babel habitada por toda a população do planeta.

A mente que nos distinguiu de nossos ancestrais primitivos, nos facultou a constatação de que estamos submetidos a uma ordem implacável da pulsão animal de sobrevivência. Prisioneira do maior e mais formidável dos labirintos, esta mente é obrigada a se deformar para funcionar dentro do confinamento imposto.
Isolados, ameaçados e carentes, nos tornamos nosso próprio Minotauro, o mais bruto residente aprisionado dentro do corpo, agredindo e destruindo porque necessitamos de ação e atenção para nos mantermos vivos. E neste ritmo frenético, nenhum sacrifício será o bastante para nos acalmar e nos redimir.
Desde era imemoriais, vivendo e morrendo neste estado de decadência mental universal, esta condição de transtorno psicológico passou a ser conhecida e aceita como “a imutável natureza humana (sic)”.


“Teseu e o Minotauro no Labirinto”, desenho de Edward Burne-Jones (1861)

A LIBERDADE DE UM SERÁ A LIBERDADE DE TODOS

Agora que esta analogia cumpriu sua função e esclareceu o papel que a mente — cativas dos instintos animais e condicionada por “contratos sociais” — exerce em sua vida, é hora de indicar uma solução definitiva para nos livrar deste conflito biológico entre os impulsos de natureza primal, a consciência e a inteligência nativa do corpo humano.

E isso requer a definição racional de certos termos.

EGO, SELF, EU, CENSOR… MINOTAURO!

Primeiro: o ego é a percepção de um eu separado de outro eu. E essa “consciência” de um “eu”, “meu” e “mim” mesmo é condicionada e educada socialmente. Uma criança criada por lobos ou macacos ainda terá um ego, porque nosso sensível sistema nervoso permite detectar as diferenças de formato entre um corpo e outro.

O ego nasce de uma consciência animal, o “id” (“it” em inglês) no jargão da psicanálise, condicionada através da comunicação de sentimentos e da imitação de comportamentos. Id e ego por sua vez criarão o “superego”, outro termo psicanalítico, a parte imbuída de um senso de moral superior e de um espírito que o filósofo Sócrates chamava de “Daimon”.

Id, ego e superego, as três faces dessa entidade psicológica semi-consciente, se manifestam simultaneamente quando suas sinapses se formam e ocupam a memória.

O censor é este triunvirato agindo em retroalimentação entrópica: instintos abastecendo a identidade do “animal social” que dirige e é dirigida por uma “alma” autodeclarada imortal que sente que pensa e pensa que sente.

Esta entidade biológica, psicológica e psíquica, parte animal, parte humana e parte divina, será representada doravante como “minotauro”, um terço touro e os outros dois terços homem e deus. E o minotauro, ao contrário dos centauros, é um monstro porque justamente sua cabeça é taurina, guiada pelos instintos básicos do apetite, a saber, agressão e prazer.

Na Arte Sinestésica da CONTEMPLAÇÃO o objetivo não é se submeter ou controlar estas três faces em conflito para “normalizá-las” ajustando-as para se nivelar com a infelicidade geral, com o “mal-estar na civilização”.

Neutralize o minotauro, e o labirinto se esvai. Exatamente o que ocorre durante um evento de sinestesia. A meta da CONTEMPLAÇÃO é fazer destas experiências de pura sinergia sensorial a condição presente e imanente do corpo livre do minotauro interior.


“Máscara do Minotauro”, Pablo Picasso (1958).

A MENTE NÃO MENTE

Segundo: a mente é o sistema nervoso computando os estímulos recebidos.
O cérebro e demais órgãos vitais funcionam em harmonia uns com os outros: o coração irriga os pulmões que oxigenam o sangue em um fluxo contínuo, preservando a estrutura de recebimento e transporte de informações do sistema nervoso central.

Em suma, cada célula do corpo trabalha individualmente e agrupada em colônias, recebendo e retransmitindo sinais pré-programadas.

Somente ao cérebro e sua vasta rede neural movida por impulsos eletroquímicos estimulados pelo ambiente e processos orgânicos internos, é que cabe a responsabilidade de manter os sistemas ativados, em módulo automático de sobrevivência e adaptação. O corpo garante a preservação do cérebro comum da sua espécie transferindo para a próxima geração a informação condensada no encontro entre o espermatozoide e o óvulo.

Cada novo membro da espécie herda o mesmo cérebro primordial retransmitindo-o sucessivamente em uma complexa cadeia hereditária de combinações e variações genéticas.

Entretanto, em sua totalidade, estes corpos carecem completamente de um senso de moral.

NÃO NASCEMOS COM UM SENSO DE MORAL

Você não nasceu com ele e nem o autor e nenhum outro animal o tem. Nós adquirimos um senso de moral ao sermos doutrinados desde cedo por um tutor, pela família e/ou vários homens e mulheres diferentes.

Os delinquentes juvenis nasceram sem qualquer senso de moral, da mesma forma que você e o autor, e não tiveram as mesmas chances de sofisticá-lo; o meio e suas experiências não o permitiram.

Então, o que é “senso moral”?

É uma elaboração artificial do instinto de sobrevivência que por sua vez é a própria natureza subumana e cada aspecto da personalidade deriva dele. Qualquer informação que discorde das diretrizes do instinto de autopreservação faz com que o indivíduo se sinta infeliz, amedrontado, revoltado, ressentido e agressivo. Progressivamente os mais sensíveis são eliminados e seus genes deixam de constar no DNA das futuras gerações.

O erro letal que nossos filósofos basilares cometeram apesar das suas boas intenções, e que continua sendo repetido, em contraste com o que eles pensavam estar fazendo e obtendo resultados, é muito profundo. Ignorantes de uma explicação científica racional da moral e das crenças, eles nos ensinaram com seu exemplo a viver, matar e morrer por um ideal, e a tese deles estava errada — uma parte era conjetura e consolo, a outra era fraude intelectualizada. Quanto mais empenhados, mais perdidos ficavam.

Eles assumiam que o homem tinha um instinto moral na composição íntima de sua essência.

Eles assumiam que o homem tinha uma “alma” e que esse espírito pertencia a alguma divindade para a qual retornaria.

Uma teoria da moral que atendesse às exigências do método racional científico deveria estar assentada em fatos relacionados ao instinto do indivíduo para sobreviver a qualquer custo — e em nenhum outro lugar ou referência! E esta teoria deveria descrever corretamente como o imperativo cego da sobrevivência nos dribla, apontando as motivações para isso e os conflitos que alimenta.
Os problemas morais podem ser exemplificados por uma afirmação que o ser humano se sujeitou no passado e trouxe para o presente: “nossa natureza humana (sic) nunca poderá ser modificada”.

Há vários milênios esta conclusão equivocada travestida de sabedoria ancestral e verdade científica começou a ser revista e questionada.

Os benfeitores da humanidade apelam para o “lado bom” dessa alegada natureza humana defeituosa, tentando normalizar a mente à luz da psicologia moderna e/ou com conceitos milenares e tradicionais de amor, ética, estética, erudição, teologia, política, filosofias e religiões de transcendência metafísica. Nenhuma destas medidas obteve sucesso duradouro nesta empreitada.

Estes fracassos deveriam ter sido previsíveis. O homem não tem qualquer tipo de privilégios ou poderes sobrenaturais no mundo objetivo.

Estamos munidos de um encéfalo, um computador pessoal, e uma mente operando de forma similar a um programa de processamento de dados. Aprendemos replicando comportamentos e hábitos e crescemos neste padrão de mimetismo. Independente do jeito como esta mente é programada para pensar e das informações inseridas e armazenadas, a imitação e associação de conceitos prosseguem.

O falso mistério da mente está nos impulsos instintivos do comportamento animal como um nó intrincado de sentimentos e emoções misturados a pensamentos e percepções sensoriais. Neste emaranhado de ligações desconectadas do instante presente e dos fatos verificáveis através dos sentidos, um monstro feroz esconde-se nas suas entranhas.

Diante deste quadro alarmante, por que não montar um par de asas e abandonar este labirinto tenebroso, a exemplo de Dédalo.

Voltemos à mitologia.


Baixo relevo do Século XVII – representação de Dédalo e a Queda de Ícaro, Museu Antoine Vivenel, Compiègne, França.

Na fuga aérea de Dédalo e seu filho, Ícaro se arriscou a uma maior altitude contrariando os avisos do pai. Seduzido pelo brilho do sol, o rapaz voou em sua direção, alheio ao calor derretendo a cera que mantinha as penas grudadas nas suas asas.

Ícaro se tornou um dos desobedientes mais trágicos do panteão grego ao lado do destemido Prometeu e da curiosa Pandora.

Voar acima e para fora do labirinto pode ser descartado.

Esta opção ameaça distorcer a perspectiva da mente deslumbrada com o panorama enquanto o labirinto e seu monstro de estimação estão lá embaixo a sua espera.

Não se identificar com nada, alienar-se em abstrações ou viver em negação, no niilismo ou no solipsismo, são escapismos atraentes e convidativos ocupando a mente com abstrações conceituais e debates sem fim.

Cativos do céu, não haverá pista de pouso para o Dédalo contemporâneo: o labirinto já se estendeu por todo o horizonte e continua se expandindo, englobando tudo e todos em seu avanço. Quanto mais pairar acima dele, maior a chance de derreter suas asas e cair de volta na antiga prisão terrena.

CHEGA DE ADIAR O INEVITÁVEL

Para conquistar e estabelecer de vez os louvados direitos humanos, o primeiro e último passo é libertar nossos sentidos.

A violência gratuita e a insanidade generalizada são sintomas, efeitos colaterais de uma mente possuída por uma identidade parasita, uma personalidade, um ego; as vítimas deste minotauro interior investem tudo na crença em valores doutrinados e no adestramento do pensamento para domar o seu lado mais selvagem, e perdem de vista a possibilidade latente de mudar a si mesmos agindo na raiz do problema: eliminado o censor, labirinto e minotauro desaparecem em um passe de mágica, porque no mundo objetivo eles nunca existiram.

AS BOAS NOVAS

Temos uma explicação agora, e melhor, uma metodologia: é possível resolver qualquer problema de qualquer nível relativo a autoridade (e auto interesse), relacionamentos (vida conjugal, família, nação…), profissão (comércio de produtos e prestação de serviços com responsabilidade para com a raça humana e a sustentação ecológica-econômica) e saúde (despertando a inteligência nativa do corpo para o próximo patamar evolutivo). Enfim, a Arte Sinestésica da CONTEMPLAÇÃO possibilita desenvolver uma mentalidade original para o advento de uma pós-humanidade e suas relações com a evolução no futuro. E em vez de apenas jogar com as palavras, lhes daremos um significado objetivo que renova conceitos que mudam comportamentos (na história desta civilização palavras novas como alma, liberdade e verdade foram pautando o seu curso).

Depois será a sua vez de também usufruir dos benefícios imediatos e surpreendentes da libertação sensorial, esteja onde estiver em seu labirinto.

A seguir vou apresentar um breve resumo da minha história como autor desta inesperada descoberta.

UMA MICROBIOGRAFIA

Nasci em uma noite de agosto de 1973 sem nenhum sinal milagroso no firmamento ou conjunção especial dos astros.

Fortuitamente cresci em um lar coeso, com pais influenciados por uma educação menos rígida devido às transformações sociais históricas iniciadas em 1969, ano em que se casaram.

Sou o filho mais velho de três irmãos. Fui criado por um casal que se esforçou em me garantir os recursos para crescer saudável e instruído para cumprir meu papel na sociedade. Investiram em meus estudos e no meu talento precoce para as artes plásticas como uma boa carreira profissional.

Morando em um país tropical no Ocidente ao Sul do Equador e banhado pelo Atlântico, fui educado nos moldes mínimos do catolicismo.

Meus primeiros quatorze anos estiveram envolvidos com as atividades corriqueiras e comuns dos jovens e suas expectativas próprias da adolescência.

Esta rotina mudou no penúltimo dia do ano de 1987.

Há uma montanha nos arredores da minha cidade natal. Por algum capricho hormonal, decidi que a escalaria e conquistaria seu cume antes do Ano Novo. De repente eu adquirira a intensa convicção de que aquela montanha tinha algo que eu precisava ter. Mas que este algo deveria ser tomado com suor e pela força da vontade, sem negociações e capitulações. Posteriormente entendi que essa monomania foi um pretexto para criar o meu próprio ritual de passagem. Se eu perdesse aquela oportunidade, algo iria faltar na formação do meu caráter.

Preparado com uma mochila improvisada, uma garrafa de água e um lanche, alheio a qualquer preparação física prévia, regras de segurança ou orientação de experts em escalada livre, parti a pé pela manhã, com as ruas ainda escuras.

Cheguei na base da montanha ao meio-dia, caminhando com determinação.

Mesmo cansado depois de horas andando alguns quilômetros pela estrada e depois pelo cerrado, recusei comer as bolachas antes de começar a subida. Encarei este ato como uma prova de valentia típica dos jovens amadores iniciando nos esportes radicais.

A custa de um esforço perigosamente exaustivo e arriscado naquela escalada sem equipamentos, consegui chegar próximo ao topo sem nenhum acidente. Uma proeza que os profissionais desaconselham e criticam chamando de “sorte de principiante”.

Mais de uma vez estive bem próximo do desastre oscilando entra o tombo e a aterrisagem em um tapete de pedras.

Incansável, arrastei-me nos últimos metros rumo ao topo da montanha, recuperando o fôlego a cada palmo de investida em sua direção. Ao chegar no ponto mais alto e plano, deitei-me de costas no chão à beira do precipício.

EU HAVIA CONSEGUIDO

Sentei-me ao lado de um arbusto retorcido. Daquele pico elevado uma serra estendia-se à minha frente. Lá embaixo vi a cidade de um lado e o principal rio da região que a contornava.

Mergulhado em uma atmosfera de triunfo, fiquei ali parado, como se aguardasse a entrega de um prêmio merecido. Neste intervalo, uma nuvem espessa deslocou-se e projetou gradualmente a sua sombra sobre a paisagem. Soterrado nesta camada opaca parecida aos dias cinzentos de inverno, uma frustração infantil se insinuou no meu peito.

Subitamente um tênue feixe de luz começou a filtrar-se por uma fenda nas nuvens, quebrando a incômoda suspensão anterior do sol. Aquela janela incandescente de raios brancos e dourados fatiando o céu em várias tonalidades de azul foi como uma segunda alvorada naquele dia.

Na sequência, um destes raios solares refletiu na superfície longínqua do rio criando a ilusão de um relâmpago congelado entre a água e a terra. Maravilhado com a nitidez do momento, ocorreu-me o primeiro vislumbre de liberdade do labirinto.

Com o censor ausente, a COMTEMPLAÇÃO se manifestou com toda a sua imobilidade silenciosa.

UM EVENTO DE IMERSÃO SINESTÉSICA

Senti um formigamento dos pés à cabeça e num piscar de olhos o intervalo entre o sono e a vigília sumiu. Tudo à minha volta também se modificou como se eu saísse de uma caverna escura e me encontrasse diante de um reino colorido de conto de fadas, vibrante e luminoso, com as plantas e as rochas envoltas por uma aura de fogo cristalino.

A percepção de 360 graus das cores e dos aromas adocicados das matas, das formações almofadadas de outras elevações montanhosas, do som do vento refrigerando e secando o suor nas minhas roupas, do conforto e serenidade que invadia cada poro, tudo aconteceu repentinamente e sem alardes.

Integrado àquele quadro vivo e espetacular, sem o observador tagarela para atrapalhar os sentidos, eu nunca havia me sentido tão vivo, feliz e realizado!

Aquela foi a primeira vez que coloquei a cabeça para fora do labirinto, livre dos seus domínios e com total ausência de dúvidas.

Umas duas horas depois, ainda exausto e trêmulo, sedento e arriscando uma insolação, voltei a mim ciente de que ninguém sabia daquela minha aventura irresponsável.

Tomei a água guardada na mochila e esvaziei a garrafa. Coloquei um boné e comi apressado o meu lanche, decidido a chegar em casa antes de um temporal que se aproximava no horizonte.

Desci pelo lado oposto da montanha, menos íngreme e sem os inconvenientes das pedras. Sentia-me leve, quase sem tocar a relva no solo. Mais tarde recordei as vezes em que passava as férias escolares na fazenda com os meus avós e da sensação de liberdade e felicidade de estar simplesmente lá, onde todos os dias eram domingos ensolarados. Aquelas e outras experiências de completa sensorialidade na minha infância foram tantas e tão naturais que não me dei conta de que as havia perdido em algum período da puberdade.

Naquela mesma noite antes de dormir registrei em um caderno aquela experiência notável de intensa paz, alegria e segurança que ainda perdurava em mim e ao meu redor.

Acordei na primeira manhã de 1988 lembrando daquelas horas radiantes de suspensão no tempo e no espaço. Durante os vinte anos seguintes continuei com a sua memória sem nenhuma explicação para aquela estranha e maravilhosa combinação de sensações. Teria sido um estado de transe hipnótico produzido pela minha disposição de ânimo aliada à solidão, ao vigor da testosterona juvenil e ao reflexo de cristal no rio?

O resgate urgente daquela consciência magnânima, mesmo que tenha sido um delírio febril, tornou-se o meu Everest a ser escalado.


“On the Shore”, por Viktoriya Milgalter (2017)

A MARCA INDELÉVEL DA CONTEMPLAÇÃO

As crianças se esquecem destes momentos ao se desenvolverem e raramente conseguem evocar estas lembranças quase perdidas. E várias pessoas passam repetidamente por elas ainda jovens e menos vezes na fase adulta.

Nas minhas pesquisas descobri relatos similares nos textos de místicos pelo mundo e em todas as culturas e épocas. E, com ligeiras variações, essas experiências eram descritas em termos superficiais e parciais, embora semelhantes: calma, identificação com a natureza e união com “O Absoluto”.

Tratava-se de definições e classificações inadequadas, com conotações religiosas e de magia, abusando de paradoxos poéticos e emotivos. O que denominei de “ausência de dúvidas” quando o agora é gratuito, delicioso, delicado e imóvel, sem tempo exceto o movimento perpétuo do universo objetivo, outros chamavam de “êxtase” e outros rótulos de misticismo.

Seria um dom divino e um poder transcendental reservado a uma elite de escolhidos ao acaso?

O fenômeno era inegável; a dificuldade estava em explicá-lo, revivê-lo e desencadeá-lo espontaneamente, sem depender de uma vida austera e mortificada.

Seria sensato aguardar pacientemente de pernas cruzadas por uma nova visita tão admirável?

Os homens considerados santos lutavam para alcançar esse estado beatificado de repouso desperto.

Uns trilham as sendas da disciplina estoica e da meditação e outros usam drogas alucinógenas com rituais de devoção.

Tentei e testei ambas as abordagens.

Busquei a CONTEMPLAÇÃO experimentada naquela montanha nas artes marciais esotéricas do Oriente e nas técnica iogues, e ainda nas mais exóticas e inconsequentes incursões religiosas e filosóficas, do Espiritismo ao Xamanismo, do Xintoísmo ao Sufismo, assistindo os vários gurus New Age disponíveis no mercado da meditação e dos modismos alimentares.

Sem saber que a CONTEMPLAÇÃO não requer a tensão de uma busca desesperada por uma dádiva, nunca obtive qualquer sucesso consistente em reviver e conservar o que acreditei se tratar da tão almejada “Iluminação”.

Na época, tudo que li e ouvi a respeito de estados alterados de consciência era que o censor, o ego, poderia se deslocar da cabeça para outras partes do corpo e além dele como nos sonhos de viagem astral. E que era possível cultivar uma expansão mental semelhante no dia a dia. Nestas leituras soube que muitos perdiam essa aptidão espontânea e entravam em pânico, caindo numa profunda depressão sem causa orgânica aparente. Uma “doença da alma”. Alguns buscavam refúgio na religião, na esperança de redescobrir a experiência de imersão sinestésica na prece. Para uma minoria a vida sem o arrebatamento místico lhes parecia insípida e sem direção. E o suicídio lhes era apontado como saída.

Nossa pouco explorada capacidade sensorial de acompanhar a própria corrente de pensamentos sem apelar para a imaginação, de apercepção assistindo o funcionamento da mente com ela própria, é um talento natural humano, um fruto evolutivo que recompensa a espécie que o saboreia com longevidade e lucidez.

Alerta e convicto com o meu propósito inicial, vivi os anos seguintes suspeitando que a sinestesia poderia indicar o desenvolvimento de um sentido novo que, no futuro, seria compartilhado por toda a raça humana. E se considerarmos a nossa espécie como um superorganismo, a comunicação coletiva por meio de uma telesinestesia permitiria aos homens e mulheres a percepção direta das três dimensões do universo material nos afazeres cotidianos, vivendo em liberdade no mundo objetivo em vez de subjugados pelas emoções no mundo conceitual.

Exceto pela ingestão de bebidas enteógenas e “fluxos” passageiros ocorridos em atividades físicas intensas como nas lutas marciais, não tive qualquer resultado duradouro.

Talvez minha vontade não fosse suficientemente forte? Ou meu ego era um empecilho sem o qual o cérebro não sobreviveria?

É sabido que certas plantas, humanos e animais produzem dimetiltriptamina, o DMT. Seria mesmo indispensável o emprego de alguma substância química para ampliar e recriar aqueles momentos imaculados de percepção sinestésica? O que impedia meu retorno àquelas paragens onde muitos devotavam uma vida inteira de ascetismo com uma probabilidade de 1 em 1 bilhão de resultado positivo?

Qual o preço para existir na plena totalidade do meu ser?

Testei, questionei e comparei vários métodos acessíveis de autoconhecimento e “religare”, incluso regimes dietéticos e de exercícios psicofísicos, e só consegui provar que eram contraproducentes e contraditórios, desviando o foco da CONTEMPLAÇÃO.

O desgaste neste estudo e nas suas práticas radicais de ascetismo e disciplina drenavam meus esforços. E o envolvimento com os conceitos, crenças, dogmas, textos sagrados, superstições, profecias, líderes e seguidores integrantes de diversas seitas serviam perfeitamente para procrastinar um aprofundamento me mantendo no trivial, entretido com a exatidão dos detalhes em vez da objetividade dos fatos. A condição normal da mente regida por um censor é de devaneios, projeções, fantasias e monólogos internos sem nexo.

Percebendo que as comunidades tendem a frear o crescimento e a evolução individual de seus membros, aboli a maior parte dos meus relacionamentos para ficar nos bastidores, livre para pensar devagar e sozinho. Massa e rebanho eram sinônimos e deviam ser arduamente evitados. As várias frustrações na religião e com os seus seguidores, o fim de um romance e um hiato de um ano sabático acinzentaram minhas ilusões afetivas e me desestimularam a perseguir os temas tradicionais de transcendência do ego e promessas de uma hipotética união divina.
Aos trinta anos, minha filosofia era o relativismo e o cinismo cético típicos de um discípulo sem mestre, ressentido com seus pares e sem paciência com sermões hipócritas e discursos defasados.

Seria o universo uma colossal piada cósmica?

Ou a insanidade era o destino reservado ironicamente ao único mamífero com uma mente racional consciente?

Com a perda do fascínio pelas revelações fantásticas e fantasiosas nos tratados espiritualistas e de autoajuda, descontente com os dirigentes políticos, religiosos e profissionais que conheci e convivi ao longo de três décadas, e saturado de um conhecimento acadêmico sem aplicação prática embora capaz de desacreditar todas as crendices vigentes, resolvi me dedicar exclusivamente ao trabalho e à manutenção de um relacionamento com uma nova companheira.

Decidido a encerrar minhas buscas visando atingir uma suposta iluminação espiritual, um encontro inesperado apontou-me uma nova abordagem para sair da crise do labirinto.


UG Krishnamurti (1918 – 2007)

A MÍSTICA DA ILUMINAÇÃO

Em 2006 fui encarregado de encontrar e contratar autores nacionais e estrangeiros para comprar os direitos autorais das suas obras esotéricas e ampliar o catálogo de uma editora.

Navegando pela internet encontrei uma página com um registro fiel das palavras e da vida de um anti-guru pouco conhecido no meio editorial e nos círculos gnósticos: Uppaluri Gopala Krishnamurti, ou simplesmente UG, para não ser confundido com um outro famoso pensador indiano, Jiddu Krishnamurti, ambos com um passado conturbado vinculado à Teosofia.

Li os seus livros e cartas, assisti seus vídeos e ouvi suas entrevistas e comentários junto aos seus amigos.

UG mostrou ser a prova viva do que é e do que sente um iluminado. Para ele a iluminação foi antecedida por um “processo” incrivelmente doloroso e angustiante de consolidação.

UG chamou este evento de “Calamidade”.

Sua descrição imparcial deste fenômeno justificou o título dado ao primeiro livro divulgando seu testemunho e condição psicofísica ímpar, “A Mística da Iluminação” (DOWNLOAD E-BOOK AQUI).
De acordo com ele, o ego com o qual viveu e foi regido por mais de quarenta anos, literalmente morreu sem qualquer possibilidade de ressurgimento. Também afirmou que uma experiência de quase-morte, provavelmente uma catatonia extrema a beira do coma, precede a extinção do ego.

Os iluminados sofreram efeitos fisiológicos semelhantes durante esta mutação do corpo e, como sequência, da mente.

UG foi o primeiro a admitir que a poesia da iluminação, conforme documentada e apresentada nos tratados clássicos, era incompatível com a realidade chocante em que vivia.

Ser um iluminado alavancou o superego e como seus sentidos se ampliaram vinculados à condição subumana, UG inadvertidamente considerou o pensamento um grande inimigo.

“Basicamente, a natureza humana é exatamente a mesma, seja na Índia, na Rússia, na América ou na África. Os problemas humanos são exatamente os mesmos. Todos os problemas são criados artificialmente pelas várias estruturas criadas pelo pensamento humano. Como eu disse, existe algum tipo de (não posso fazer uma declaração definitiva) problema neurológico no corpo humano. O pensamento humano nasce desse defeito neurológico na espécie humana. Tudo o que nasce do pensamento humano é destrutivo. O pensamento é destrutivo. O pensamento é um mecanismo de proteção. Ele traça fronteiras ao seu redor e quer se proteger. É pela mesma razão que também traçamos linhas neste planeta e as estendemos tanto quanto podemos. Você acha que essas fronteiras vão desaparecer? Eles não vão. Aqueles que se entrincheiraram, aqueles que tiveram o monopólio de todos os recursos do mundo até agora e por tanto tempo, se eles estivessem sob ameaça de serem desalojados, o que eles fariam é uma incógnita. Todas as armas destrutivas que temos hoje estão aqui apenas para proteger esse monopólio.”
(trecho traduzido do livro Thought is Your Enemy, 1991)

Satisfeito com as suas palavras de alerta e com a sua abordagem radicalmente diferente da iluminação divulgada por Bhagwan Shree Rajneesh (Osho) e Jiddu Krishnamurti (JK), dois dos mais carismáticos e controversos iluminados modernos, eu estava decidido a publicar a obra inédita, original e provocante de UG.

Antes de lançarmos seu livro no Brasil, UG faleceu dia 22 de março de 2007 aos 88 anos, quase anônimo na mídia internacional, em Vallecrosia, uma pequena cidade no interior da Itália.

Esta e outras razões de ordem econômica nos levaram a arquivar e encerrar o projeto de uma coleção completa dos seus títulos.

Porém, aquele encontro com o testamento cru e colérico de alguém que com certeza experimentou o mesmo que presenciei na montanha e padeceu por não ultrapassar um estado alterado de consciência, encerrou uma dúvida antiga e a substituiu por uma outra ainda mais instigante.

UG havia conseguido se orientar no labirinto sem o apego e a vaidade narcisista ostentados por outros indivíduos iluminados. Seu “estado natural” foi um avanço sem precedentes na tentativa humana de solucionar e superar este desafio. Tal ato de coragem e franqueza descomunal inspirou-me a retomar minhas investigações. Qual seria a meta agora que havia o risco de ser apanhado na armadilha de algum estado alterado de consciência?

 


LABIRINTO 2.0

A comparação com o labirinto volta a ser instrutiva: transitar livremente pelos seus corredores circulares, alargando suas fronteiras, não significa liberdade total.

Um iluminado ainda é um prisioneiro em uma cela maior, satisfeito com a ausência das grades da ilusão. Sua emancipação é elástica, complacente e muito acima da média da população carcerária.

Meu diagnóstico a respeito de UG: o indiano considerado por muitos como um “terrorista espiritual” foi outra vítima do minotauro residente no coração do labirinto.

Felizmente não precisamos reinventar a roda e cometer os mesmos erros dos nossos antecessores. Com os depoimentos sinceros de UG aprendi uma grande lição: para vencer o desafio do labirinto, uma lanterna não bastava.

O ego deveria cair, certamente, mas uma vez liberto desta máscara de ferro, era necessário rastrear a fera selvagem com as asas emprestadas de Dédalo e a espada afiada de Teseu, a prudência dos aviadores e a ousadia dos guerreiros, ambos dispostos a se sacrificar pelo bem comum.

Recomecei minhas pesquisas com uma nova visão do problema. A missão era aniquilar o minotauro, o censor parasita que habitava o meu labirinto com suas paixões animais instintivas sabotando cada passo e pensamento regulado ou não pelo ego.

Deduzi que um labirinto sem nenhuma ameaça seria uma construção abandonada e esquecida.

Visto de cima, o desenho de um labirinto clássico é simples e unidirecional, sem becos fechados ou falsas aberturas para nos desorientar. O medo sentido pelo solitário minotauro interno nutriam o caos, a violência e a tristeza comuns, afinal…

…o labirinto de um é o labirinto de todos.

Quem combate monstros acaba se identificando com eles e ao olhar para o abismo, o abismo nos olha de volta, reza o ditado popular.

Evitei o confronto direto e planejei uma ofensiva lateral sobre o problema:
a) O minotauro era parte intrínseca do labirinto;
b) Se demolisse este quebra-cabeça para desabrigar e deixar o minotauro exposto à luz do dia, sem barricadas e trincheiras onde se proteger, poderia ser a solução definitiva.

Esta medida danificaria a própria estrutura e razão de ser do labirinto!

O meu primeiro progresso ao me erguer nos ombros de gigantes como UG foi elaborar um jogo de busca e destruição de tudo que sustentava o labirinto.

A guerra contra o minotauro havia sido declarada.

Meu troféu seria recuperar aquilo que sempre me pertenceu por direito de nascimento: uma existência com significado, sem malícia e amargura, em paz comigo e com meus semelhantes, em abundância de bem-estar e bom gosto, agindo com inteligência e bom senso em cada segundo e em quaisquer assuntos, sem estresse, ansiedades e arrependimentos, imune às doenças psicossomáticas, sem rompantes de ódio, inveja, depressão e euforia. Seria o final das revoltas despropositadas e das atitudes neuróticas, defensivas e rancorosas. Sem complexos, fobias, temores, pesadelos e pensamentos perturbadores. Não dependeria do pensamento positivo tanto quanto deveria depender de pensamentos negativos, e ninguém e nem o clima seriam capazes de me influenciar e ditar arbitrariamente as minhas ações e decisões. Para ter sucesso era vital suplantar o estado lamentável em que bilhões de pessoas satisfazem seus instintos à custa de tanta dor, sofrimento e loucura.

Mas faltava-me uma peça neste mosaico.

Depois de UG ninguém mais afirmou que obteve um avanço maior e mais consistente além dos limites da Iluminação.

Esta era a minha conclusão, na falta de exemplos vitoriosos que corroborassem minhas suspeitas.

O MUNDO OBJETIVO

Eu sabia que o planeta Terra não era um labirinto.

Flutuando na Via Láctea e na vastidão infinita do espaço, estamos juntos nesta nave e universo, usufruindo dos recursos disponíveis. E não faz sentido procurar conflitos e confusões onde a paz, a ordem e a harmonia imperam em grau máximo. O verdadeiro responsável pela desordem interior que afeta o exterior é uma mente aprisionada na sua versão defasada, obsoleta e supérflua, ameaçando o corpo e o seu habitat.

Isto deveria ser solucionado de um jeito irreversível e seguro, sem todas as mortes, perdas, terror, torturas, abusos e infelicidades generalizadas de uma condição longe de ser “humana”.

As tecnologias religiosas fracassaram em encontrar uma solução para esses dilemas. E apesar de todo o seu empenho nos últimos séculos, a ciência substituta também não foi suficiente.

Na hipótese de ser outra vítima de algum estado alterado de percepção e me “iluminar” acidentalmente neste processo, não haveria um antídoto ou um remédio para tratar deste efeito colateral caso ocorresse.

Com trinta e quatro anos, minha história e motivação culminaram nestas observações após uma série de exames, comparações, revisões e análises nas quais fui a minha própria cobaia.

Por exemplo: o minotauro tem múltiplas personalidades e elas não respeitam a felicidade e o sucesso pessoal. Se isto ocorre, é um indício claro de que estão perdendo terreno. E aprendi a duras penas que não se deve dar as costas a nenhuma delas. Colocar o minotauro no ostracismo ou em quarentena é um tipo de tratamento que ele jamais perdoa.

Ninguém saiu ileso ao ignorar esta fera.

Seria muita pretensão querer encontrar a libertação absoluta de todas as ciladas existenciais do labirinto?

Antes que a frustração retornasse, outra serendipidade, um evento casual e acidental, similar ao meu encontro com a “mensagem” de UG, ocorreu em 2008.

 

NGC 2174, a Nebulosa Cabeça de Macaco, captada pelo telescópio espacial Hubble em 2011 (AFP/NASA/ESA / the Hubble Heritage Team)

LIBERDADE ATUAL

No mês de maio daquele ano deparei-me com uma lista de correspondência entre membros de um grupo de discussão do Yahoo tratando exatamente deste assunto. E um deles, um australiano autoapelidado “Richard”, usando de uma abordagem pé-no-chão, pragmática e literal, descartava de imediato os estados alterados e místicos de consciência e outras alucinações, sem apelar para uma visão mecanicista e fria do universo que só nos alienaria do nosso conflito interno com explicações reducionistas e deterministas.

Richard era o principal autor e diretor do website www.actualfreedom.com.au. Eu havia passado por experiências e buscas similares às dele. Porém sua ênfase em uma “terceira alternativa” para se libertar da “Condição Humana”, o “Labirinto”, superando os caminhos materialistas e espiritualistas, não me estimulou a princípio.

Richard conta que estava servindo voluntariamente no Sudeste Asiático, fardado e de fuzil nas mãos quando um monge budista se encharcou de combustível e ateou fogo, protestando “pacificamente” contra a política belicista do seu país. Presenciar o terror e a incoerência da guerra do Vietnã, conforme descreveu em seu diário, inspirou nele uma procura por algo diferente do que até então havia sido tentado pela humanidade ao longo da história da civilização.

Em 1992, após onze anos vivendo em um estado alterado de consciência conhecido popularmente no Oriente como “Iluminação”, “samádi” e “satori”, Richard superou este platô desencadeando uma mutação biológica em seu cérebro. Seis anos depois ele chegou a algumas conclusões práticas e racionais que decidiu compartilhar com quem estivesse na mesma jornada.

As noções que eu acalentava não estavam em jogo no seu website Actual Freedom (doravante na abreviação AF): não havia um guru, um mestre, um iluminado ou um mago que ditasse e orientasse com palavras eloquentes e dogmáticas conduzidas por um olhar profundo em um ambiente artificialmente solene. Não havia exercícios de meditação ou ginástica energética, nem recomendações de dietas milagrosas, mudanças de estilo de vida e tampouco anedotas insólitas de encontros com extraterrestres, anjos, magos, bruxas, animais falantes e teorias cosmoéticas de matemáticos deslumbrados com a geometria.

Só depois de uma leitura progressiva e mais aprofundada do website AF é que algo ficou claro: o propósito do método de Richard, o atualismo, é erradicar, exorcizar, aniquilar o censor que possui este corpo físico de carne, sangue e ossos cuja identidade social defendemos achando se tratar da preciosa consciência.

Passo a passo, Richard, Peter, Vineeto, Alan, Mark, Gary e outros com textos postados no website AF iam relatando e definindo suas descobertas e vivências na liberdade atual.

Com bom senso e humor, franqueza e raciocínio prático, seus artigos e correspondências serviam tanto como uma motivação inocente como uma advertência de prudência. E as centenas de tópicos discutidos entre os autores e visitantes do website AF me serviram como guia nas primeiras semanas de estudo. Criei uma rotina diária de leituras críticas dos textos disponíveis e correlatos lá e os espalhados na internet, nas livrarias e nas bibliotecas junto com as minhas incursões iniciais na aplicação do método proposto pelo Richard.

Sem nada a perder, escolhi experimentar suas indicações e mudar certas respostas condicionadas, atento para determinadas atitudes e reações nas primeiras aplicações do método atualismo.

Era mesmo possível se libertar do labirinto e seu monstro de três cabeças?

Da atenção inicial, migrei para a fascinação diante da elegância, profundidade e dinâmica do universo físico ao meu redor, em seguida para a reflexão sobre o seu significado perene, chegando na CONTEMPLAÇÃO simples e direta, purificada de qualquer imaginação fértil que pudesse poluir os sentidos.

Permanecer no labirinto era uma questão de adiar um processo, faltando um passo para concluir uma viagem sem retorno.

A vitória definitiva estava ao meu alcance, e as suas consequências individuais e globais superavam as previsões mais otimistas. A libertação de um censor deixou de ser uma busca transitória e havia se reduzido a uma missão com início, meio e fim.

Neste estágio da prática do atualismo a experiência sinestésica na montanha começou a retornar, mas estranhamente enfeitada com detalhes imaginários.

Em breve eu entenderia por que tanto UG quanto Jiddu, os dois Krishnamurti, abominavam os “ismos”.

Na parte 4 prosseguirei este relato de como elaborei a Arte Sinestésica da Contemplação e o seu jogo das 8 Palavras-Chave a partir do que aprendi com estes homens excêntricos.

Envie este artigo para seu círculo de amigos que também compartilharão com outros e assim sucessivamente, como na Teoria dos Seis Graus de Separação!

A CONTEMPLAÇÃO nos liberta de um mecanismo neurobiológico ultrapassado que já foi confundido com possessão, pecados e defeitos morais e depois com doenças orgânicas e transtornos psicológicos, quando era um atraso de 12 milissegundos no sistema nervoso evitando que os estímulos físicos captados pelos sentidos fossem analisados na íntegra pela mente livre da voz de um intermediador virtual interno.

Com o pensamento recebendo exclusivamente estímulos sensoriais puros, qualquer ação e decisão será um ato de altruísmo para com o próprio corpo e os demais.

Sem revoltas e revoluções, sem livros sagrados e manuais de autoajuda, sem líderes carismáticos e influenciadores de opinião…

Basta uma geração com a habilidade de CONTEMPLAR.

Então, todas as utopias serão superadas!

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