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Academia Imoto

“Paz Interior”, referência do artista Francis Minoza ao personagem Po da animação “Kung-Fu Panda”. Visite o website do artista em www.threadless.com/@nicebleed

A mente humana tem o poder de se destacar do corpo.

Isso não significa viagens astrais, mas que o cérebro faz um truque simples com o qual conseguimos “ver” e sentir de uma perspectiva externa. Essa capacidade empática de projetar os sentidos e a consciência para se perceber do ponto de vista de outro local e pessoa, é exclusiva da mente humana. É com ela que desconstruímos preconceitos, que desaprendemos condicionamentos e reaprendemos conhecimentos e comportamentos novos (1).

Por outro lado, o censor derivado da mente animal só consegue sequestrar os sentidos alternando entre eles. E está sempre dependente dos coquetéis químicos que gera estimulando freneticamente uma gama de emoções e sentimentos.

Todavia a inteligência nativa consegue ouvir os sussurros tentadores do censor. E este é o maior trunfo da mente humana: controlar as funções motoras do corpo!

O censor quer tomar o lugar deste titereiro. Por isso ele vê a mente humana como sua arqui-inimiga. Para o minotauro da mitologia grega, o herói Teseu representa a perspicácia humana que sabe se mover pelo labirinto e caçá-lo. Somente com o enfraquecimento da mente humana o censor tem acesso aos comandos voluntários do corpo.

E este acesso é suficiente para ele causar mortes e estragos tremendos e problemas domésticos e sociais de saúde, segurança e econômicos a curto, médio e longo prazo que serão herdados por várias gerações.

As consequências e os custos dos familiares com os vícios de filhos e conjugues, dos rompantes de fúria no trânsito e crimes nas estradas, dos assassinatos passionais entre casais, da corrupção endêmica nas organizações, das fraudes no sistema econômico e da massiva manipulação midiática são somente alguns dos exemplos do censor usurpando o trono quando a mente humana lhe cede território.

Originalmente a função da mente animal, a nossa alma anímica, era puramente sobrevivência física. O censor surgiu como uma reação reflexa da mente animal quando a inteligência nativa humana começou a se manifestar e ousou contrariar os seus instintos. E essa desobediência foi encarada como uma ameaça à sobrevivência do corpo. Desde então o esforço intelectual racional não poderia ser tolerado pelo censor.

Nascia o conflito interno que passou a se chamar “condição humana”: a natureza animal de milhões de anos digladiando com a natureza humana emergente, com um “eu” entre as duas.

O censor começa a intervir igual um vírus mental invadindo para espionar e sabotar a mente humana, criticando suas decisões e injetando dúvidas e receios em quaisquer atos que não atendam aos instintos animais.

O censor não é tão grande quanto o subconsciente, mesmo fazendo parte da mente animal, porque não tem a força neural para controlar a mente humana, que é consciente e destemida.

O censor sabe que é inútil lutar diretamente contra a inteligência nativa. Sua estratégia: se manter operando em paralelo a ela.

O JOGO foi desenvolvido para corrigir isso.

Cena do filme “A Morte Pede Carona” (1986)

O CARONA

A simplicidade do JOGO é que nele estamos focados na busca daquelas quatro emoções-chave (agressão, medo, prazer e caridade) à espreita em cada uma das quatro situações-chave (autoridade, relacionamentos, serviços e saúde). Ciente disso, observe sua rotina diária.

A maior parte dos seus afazeres foi previamente regulada pela mente humana: a linguagem que usa para se comunicar, aprender e ensinar; os movimentos finos complexos no manuseio de ferramentas e máquinas; os planos e decisões que implementa… enfim as ações que envolvem técnica e conhecimento em geral são talhadas pela mente humana. E a sensação de estar ao volante é uma grande ilusão criada pelo censor.

O censor é o carona, aquele passageiro inconveniente que conversa e distrai o motorista, que critica o modo como dirige, lhe dá opiniões erradas sobre mecânica, placas de sinalização e regras de trânsito, e que exige ser levado para onde deseja e não para onde o piloto precisa ir.

Aproveitando esta metáfora, o censor ainda se apossa do mapa para conduzir diretamente o motorista e o automóvel e não tem qualquer respeito pelos outros motoristas, pedestres e patrimônio público e particular. Ele estaciona onde quer e quando quer. É arrogante, orgulhoso e conhece seus direitos legais etc.

Este intruso palpiteiro causa mais desastres do que se fosse um clandestino calado e escondido no porta-malas.

Com um copiloto destes, o automóvel desperdiça gasolina e o número de freadas e trocas bruscas de marcha vai desgastando suas engrenagens e reduzindo a vida útil do motor. E o motorista sempre ocupado, distraído e alienado com trivialidades fica incapaz de se concentrar na direção e no local onde precisa chegar.

Como lidar com essa ilusão de controle com a qual o censor barganha para manter a sua influência insidiosa?

 

RODANDO COM O FREIO DE MÃO PUXADO

Prazer e medo, apetite e aversão. Eis as recompensas do censor e as suas armas para chantagear e obter seu propósito monomaníaco: consumir progressivamente as reservas nervosas do corpo até esgotar por completo a sua vitalidade.

O censor extrai prazer do medo, da repugnância e do desespero na forma de uma pausa e alívio temporário de algum vício ou de algum comportamento prejudicial. Ele prevê e aguarda ansioso por futuras recaídas.

No momento em que a mente humana recupera e assume o comando dos sentidos, o censor é obrigado a se recolher e ficar calado, esperando a oportunidade certa para reaparecer e “motivar” o corpo. Nesta condição egofrênica alternando entre a mente animal e a humana, o corpo vai definhando e adoecendo.

Esse padecimento é causado pelo censor corrupto e ganancioso, um péssimo administrador desviando recursos para satisfazer seus apetites e aplacar suas aversões.

Livre do desgaste cerebral decorrente deste ciclo diário de desperdício de impulsos nervosos à esmo, é provável que o corpo humano dobre a sua longevidade!

Atualmente a expectativa de vida de um homem é de 72 anos e da mulher 79.

As tartarugas gigantes com um sistema nervoso equilibrado e sem muitos atritos com seus semelhantes e o meio ambiente, normalmente no meio aquático e cercadas por várias fontes abundantes de alimento e poucos concorrentes, conseguem sobreviver por quase dois séculos e morrem de velhice.

Portanto, é possível aumentar a nossa expectativa de vida e há milhares de registros de homens e mulheres que chegaram aos cem anos lúcidos, com mobilidade e independência. Um destes casos, registrado no Livro dos Records, é o da francesa Jeanne Calment, que faleceu em 1997 de causas naturais aos 122 anos.

A deterioração física humana é acelerada pelo estresse no excesso de prazeres fúteis, de ansiedade crônica e temores reais e infundados que comprometem o sistema imunológico e consomem décadas de vida. E na ocupação abusiva da memória para preservar e nutrir uma identidade, um ego.

O administrador executivo e regulador de todos os demais órgãos e sistemas vitais é o cérebro. Recupere-o e os outros serão revitalizados simultaneamente. Desgaste-o e o processo de decadência e colapso do organismo se acelera. E nada se iguala ao censor para minar o cérebro humano e fragmentar sua cognição. O censor é o grande estressor, a sanguessuga que drena a sua vítima.

A função deletéria do censor sobre o cérebro provavelmente agrava doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e a demência.

Suspeito que o “Grand Loop(2) no qual o cérebro (um órgão que pesa menos de 2% do peso do corpo) consome 20% do oxigênio e calorias do metabolismo inteiro mesmo em repouso, poderá ser evitado invertendo os papéis, ou como dizem nas artes marciais, atacando o atacante: com a inteligência nativa enfraquecendo e eliminando o censor.

E o JOGO é a arma perfeita!

Enquanto o censor raptar o sistema sensorial haverá desperdício de sinais nervosos que irão se concentrar mais em uma região cerebral e menos em outras gerando desequilíbrios hormonais dos mais diversos. E o comprometimento da saúde será inevitável.

 

(2) CIENTISTA SUGERE O QUE FAZ O CÉREBRO GASTAR TANTA ENERGIA

De acordo com o centro de investigação da IBM, o cérebro gasta grande parte da sua energia a explorar-se.

Há séculos que os cientistas tentam desvendar o órgão mais complexo do corpo humano, o cérebro. Um pesquisador do centro de investigação da IBM pode ter feito uma descoberta importante sobre o gasto de energia que o cérebro faz.

Já sabíamos que o cérebro nunca para e que consome cerca de 20% do total da nossa energia corporal, agora o neurocientista James Kozloski pode ter descoberto como é que o cérebro gasta 90% dessa energia.

“O cérebro consome uma grande quantidade de energia sem fazer nada. É um grande mistério da neurociência”, sublinha Kozloski. “Não gasta tanta energia com o ruído a não ser que haja uma boa razão.”

James Kozloski sugere que dos 20% de energia que o cérebro usa 90% são ‘perdidos’ (ou sem fazer nada). E diz que essa energia é gasta porque o cérebro está sempre num ‘looping’ de sinais por uma série de caminhos que contém, feitos de neurônios e tecido corporal. Chama-lhe ‘the Grand Loop’ (‘o Grande Laço’, em tradução livre).

Kozloski explica que estes ‘caminhos’ são como as ruas da cidade, e o cérebro está sempre a rastreá-las, refazê-las e rastreá-las outra vez – como uma espécie de patrulha.

Como reporta o Popular Science e de acordo com o investigador, esses ‘caminhos’ passam por três áreas funcionais do cérebro: sensoriais (o que está a acontecer), comportamentais (o que posso fazer em relação a isso), e límbico (o que significa para mim).

Esta descoberta além de ajudar os cientistas a perceber o cérebro a partir de uma nova perspectiva também poderá ser útil no campo das doenças neurodegenerativas.

(www.bancodasaude.com/noticias/cientista-sugere-o-que-faz-o-cerebro-gastar-tanta-energia)

Saiba mais: www.pnas.org/content/99/16/10237.full

“A Criação de Adão” pintado por Michelangelo Buonarotti por volta de 1511, no teto da Capela Sistina.

O PODER REGENERADOR DA ARTE

O censor coloca a ciência e a religião uma contra a outra, e usa ambas a seu favor.

Somente a mãe das artes e dos jogos, a CONTEMPLAÇÃO nascida da sinestesia, é imune aos instintos da mente animal, porque quando as sensações se unem, o censor perde terreno no sistema límbico do cérebro. Acione a luz da sinestesia e o espectro do censor desaparecerá porque ele não terá um labirinto onde se refugiar e assombrar.

Nos filosofismos do censor “o inferno é o outro”, “a verdade está lá fora” e a solução para os problemas da humanidade virá algum dia no futuro distante por algum milagre da medicina, pelo advento de um Salvador ou aliança tecnológica com alienígenas ultra avançados…

Esta tem sido a lógica do censor para ludibriar a gerência da mente humana e postergar sua demissão. E a ameaça fatal de tal lógica é colocar o indivíduo e a sua espécie em risco de extinção.

A arte mediante a sinestesia nos torna indiferentes e imunes à lógica do censor. E a missão urgente da inteligência nativa será aproveitar a contemplação sinestésica para refutar essa lógica nociva e despachar o censor para o limbo.

“Lógica 1. a arte de estar errado com confiança.”

LÓGICA

Para o censor, A é uma letra, B também. Logo, A = B.

Este é o tipo de lógica do censor.

Sem as distorções da lógica o censor é cego, surdo e mudo, tetraplégico e anencefálico.

Lógica não é sinônimo de racionalidade e de pensamento crítico e analítico. O censor inventou uma metalógica incompatível com a realidade. A sua lógica é colecionar os conceitos arbitrários de sua preferência no contexto seletivo que deduziu e/ou induziu.

Na dedução lógica, toda conclusão terá as mesmas premissas: “misturei água com várias bebidas alcóolicas e sempre terminei bêbado. Logo, água causa embriaguez também!”

Na indução lógica, toda conclusão é generalizada: “ontem e hoje o sol nasceu. Amanhã irá nascer novamente.”

Essas lógicas são o sistema de inferência do censor.

O censor precisa se apropriar da semântica e mudar o significado das suas premissas para chegar às conclusões que deseja. É basicamente um meio para justificar os fins sejam eles quais forem. Ele precisa aparentar plena certeza nos seus argumentos e nas suas críticas contra a mente humana. Ele tenta provar que está com a razão, que os instintos ainda são úteis na vida moderna e que sem as emoções que nos tornam “humanos” e “amorosos” seríamos robôs frios e sem alma…

A cultura Pop está repleta de exemplos deste medo irracional, de Star Trek ao Exterminador do Futuro.

“Star Trek – Kirk and Spock” pelo artista Gary Saderup

Para o censor os instintos e emoções básicos são axiomas, uma sentença que a mente humana deve aceitar sem questionar e ficar satisfeita com o seu destino de dor e sofrimento perpétuo e prazeres efêmeros, afinal… o mundo é uma realidade virtual dentro da Matrix de um supercomputador, o Paraíso celestial está além desta vida mundana e o importante é aproveitar a vida saciando os seus desejos e apetites sem atentar para as consequências dos excessos (ou como pregava Aleister Crowley, “Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei”).

O censor é um tautologista nato (“sem mim não existe eu”). Um sofista por excelência (“penso, logo existo”). E um mestre nas lapalissadas (“se eu não estivesse vivo, você estaria morto”).

O censor adora certezas “absolutas” tanto quanto as relativas e as meias verdades. A sua lógica só é validada por ele mesmo. Ele tentará justificar quaisquer desatinos para aparentar coerência e não se contradizer perante a inteligência nativa.

Contudo, a lógica do censor é divorciada do mundo objetivo e seus fenômenos naturais físicos.

Para o censor é preciso haver o sobrenatural e o paranormal, o místico e o misterioso, o divino e o diabólico, o bem versus o mal, o maniqueísmo e o relativismo. A lógica do censor depende destes conceitos religiosos provenientes do passado. E as únicas conclusões que o censor destila são abstrações de conceitos sem lastro nos sentidos sensoriais e no mundo objetivo. A subjetividade é a sua cobertura para se manter atuante sem se expor demais. Ele se mantém reservado e só intervém naqueles 12 milissegundos antes que o intelecto da mente humana possa agir.

O censor, um adepto do empirismo, confia naquilo que fabrica. O problema é que ele se limita a fabricar emoções, seu combustível químico e a substância do seu vício. Por conseguinte, prefere apelar para a religião, o solo sagrado onde as opiniões das autoridades e as explicações mais irracionais são respeitadas por se tratar de um direito de expressão. Neste ínterim sacrifica as faculdades cognitivas, ocupando e saturando a memória. E o cérebro se desregulará ao perder as ligações sensoriais com o mundo objetivo.

O censor usa a lógica para confundir, deturpar e persuadir a mente humana. Mas a inteligência nativa também tem um propósito para a lógica: resolver os problemas derivados dela. Enquanto a lógica do censor tem limites e orbita ao redor do ego, a inteligência nativa é ilimitada e altruísta, totalmente livre do antropocentrismo que divide e segrega.

A mente humana não precisa das provas ou das verdades obtidas pela lógica do censor. Para ela basta que as informações recebidas pelo sistema sensorial sejam claras e objetivas.

Podemos desperdiçar uma existência inteira tentando comprovar as deduções e induções lógicas do censor (ele se favorecerá deste período para se manter intocado). Ou podemos ficar com os fatos do mundo objetivo e jogar o JOGO para inutilizar o censor e seu sistema obsoleto de inferir.

Eis erro básico da lógica, e um dos modos de enfraquecer o censor: a sua conclusão é uma opinião escolhida para atender interesses escusos. Não por acaso, a lógica é a ferramenta predileta dos clérigos, políticos e outros vendedores.

 

UTILITARISMO (3)

Apenas a mente humana que observa com seu sistema sensorial unificado é capaz de definir e validar conceitos.

Definições objetivas dos termos-chave na metodologia racional científica são cruciais para corrigir as ambiguidades por onde o censor se infiltra e corrompe o pensamento. Conceitos circulares e ambivalentes deterioram a mente humana. E o cérebro.

O censor apela para a vaidade e a arrogância, a humildade e a submissão, a justiça e a propina para persuadir e corromper o júri. Cabe à Juíza Suprema, a inteligência nativa, expulsar este “advogado do diabo” para fora do tribunal.

A lógica do censor não tem aplicação no mundo objetivo.

A realidade objetiva não é baseada nas regras e superstições criadas pelo censor. Não há instintos, emoções e sentimentos vagando pela atmosfera ou caminhando sobre a terra, e nenhuma tautologia regendo o universo material. A realidade objetiva é o que é, e tudo que a mente humana precisa é explicar os fenômenos físicos com os quais o corpo interage. E nenhuma lógica irá ajudar nesta tarefa.

O censor é ateu, teísta, gnóstico e abraçará todos os rótulos religiosos, espiritualistas, materialistas, positivistas e demais ideologias e filosofias imagináveis para se promover e se sustentar. A única ação da qual irá renunciar é admitir a possibilidade de ser erradicado. Cabe à mente humana implementar este exame demissional do censor o quanto antes sem esperar a aprovação dele. E este processo começa com o JOGO.

 

OBJETOS, CONCEITOS E _____________

Para a inteligência nativa da mente humana não há dilemas insolúveis, apenas objetos e conceitos.

Qual poderia ser a terceira categoria?

Por exemplo: se o Deus das religiões tem um formato e uma localização, estará cercado pelo espaço e contido nele. E se foi uma figura da linguagem humana é, portanto, um conceito, uma criação da mente.

Qual a terceira alternativa ou opção?

Podemos nos aventurar pelos mares em um navio pirata à deriva e tomado por um motim de marujos bêbados, sujos e violentos ou pacificamente pelos mares em um cruzeiro sob a liderança de um capitão competente e sua tripulação fiel, asseada e disciplinada.

A mente humana sabe que o corpo é feito de átomos se agrupando, separando e reagrupando sem parar e para sempre. E essa matéria não surgiu do nada e de repente explodiu no “espaço em expansão” (sic). Como ela é eterna, não pode ser criada nem destruída.

E a inteligência humana entende que o censor surgiu de um fenômeno neurobiológico sem existência isolada. E não poderia ser diferente: nascemos como consequência do encontro do espermatozoide com o óvulo. O censor, no entanto, se propaga de um corpo para outro na cultura e na educação, de uma geração para outra.

O corpo humano tem uma natureza animal e uma mente humana. Ou seja, nasce com instintos e depois desenvolve a inteligência. E o censor é justamente o elemento intermediário entre os instintos e o intelecto. Sem o censor, os instintos não subverteriam o intelecto que teria chance de analisar suas reações reflexas sem se preocupar com perigos atávicos arquivados na memória animal.

“Gods of the Modern World – The Epic of American Civilization” (1932 – 1934), pelo muralista Jose Clemente Orozco.

JOGANDO DADOS COM OS DEUSES

O conceito de Seres Superiores e de um panteão de divindades foi a forma que o censor encontrou no passado para expressar a autoridade suprema que almeja alcançar. O censor quer ser um astro, um ídolo, uma celebridade e receber a fama e as glórias que julga merecer. E criar um ou vários deuses à sua imagem e semelhança foi o seu estratagema para estabelecer uma teleologia e uma meta divina transcendental a ser conquistada. Mas no instante em que chamou Deus de Amor, Verdade, Inteligência, Compaixão e lhe atribuiu outros sentimentos, o censor o excluiu do mundo objetivo. E se o censor reifica o conceito de Deus transplantando-o para o mundo objetivo, como sendo um ser com um corpo, ou como o fenômeno da negentropia (entropia negativa) na interação e no contato entre dois ou mais corpos, então tem que lhe dar um nome e uma definição léxica.

E a sua lógica circular de autofagia, simbolizada no Ouroboros, continua.

Lembre-se: no imenso vocabulário humano, Deus e deuses, Diabo e demônios, espíritos e avatares, Budas e Salvadores, Éden e Paraíso, Nirvana e outras palavras usadas pelo censor, são conceitos que inventou movido pelo medo da morte inevitável. Isso explica os “estados alterados” de inconsciência – e inconsistência mental – da iluminação da psiquê que transforma o superego em um super censor que passa a se apresentar como um ser especial e divino visitando a Terra para pregar as boas novas, um redentor que sacrificou o corpo perecível para perpetuar um espírito imortal.

E essa estava sendo a sina da humanidade, no Oriente e no Ocidente…

“O Jogo de Xadrez”, da pintora renascentista Sofonisba Anguissola (1555 – National Museum Poznań)

LIVRE ARBÍTRIO

A inteligência nativa da mente humana não é uma ilusão. Ela é exatamente o que é chamado de “livre arbítrio”.

Como todos os átomos no universo estão conectados entre si, tudo é influenciado por tudo em algum grau. E a dinâmica da matéria não teve princípio nem terá fim. Logo, viver é ser capaz de se mover sozinho contra a gravidade encontrando a trajetória de menor resistência.

O livre arbítrio é uma realidade no JOGO e na vida. A única limitação são as disponibilidades de escolha ao seu alcance. Você planeja o que irá comer, mas dentre as fontes de alimentos disponíveis no cardápio.

Nossos neurônios estão disparando sem nenhuma escolha consciente enquanto simultaneamente podemos ativar certas partes do cérebro direcionando o facho do pensamento. Para a inteligência nativa as diferenças entre a mente, o cérebro e o pensamento humanos são claras. A mente humana é um produto da atividade orgânica do cérebro vivo (neurônios fazendo sinapses), enquanto o pensamento consciente, ou livre arbítrio, é a inteligência nativa selecionando entre as opções direcionando os disparos desses neurônios graças a um ciclo de memória e percepção sensorial entre diferentes partes do cérebro e seus neurônios recrutados.

Esse processamento eletroquímico dos neurônios está além do controle consciente da mente humana e da mente animal. E essa interação cortical entre os neurônios e suas redes neurais faculta a inteligência nativa e direciona o pensamento. Não são os conceitos pré-programados e memorizados pelo censor que convencem e ativam a mente humana.

Os diversos níveis de controle dessa interação neural são chamados de “estados de consciência”, e variam entre o sono profundo, a anestesia e as alucinações induzidas por drogas e a vigília e a sinestesia contemplativa.

“A Persistência da Memória”, pintura do artista surrealista Salvador Dalí de 1931.

O TEMPO

Todos os objetos animados e inanimados compostos de átomos são finitos. E uma vez que estão sempre em movimento, lhes dar uma direção no tempo é irracional. O passado é a lembrança de um evento e o futuro a expectativa do próximo. Só o presente, o agora, está acontecendo continuamente. E esses acontecimentos ocorrem exclusivamente entre objetos. Fenômenos produzidos na relação entre conceitos (palavras, símbolos, ideias e ideais, opiniões, explicações etc.) pertencem ao mundo mental subjetivo e estão restritos às vibrações eletromagnéticas que o corpo emana.

Para a inteligência humana a criação da matéria, do espaço e do tempo são uma impossibilidade, portanto, são irracionais e irrelevantes. O espaço é um nada, sem forma e sem distância e localização, e o tempo é uma medição artificial de movimento registrado como um padrão na memória. Sem alguém para lembrar ou uma máquina para consultar, o conceito de tempo é uma convenção socioeconômica para administrar a mudança das estações e colheitas, e mensurar as transformações químicas da matéria em movimento.

Dito isso, tempo e espaço não são considerados termos científicos para orientar a mente humana. Na metodologia racional da ciência todos os observadores são removidos para que a hipótese, a teoria e a conclusão sejam racionais e objetivas.

E a matemática? Ela é uma linguagem quantitativa para reconhecer padrões. E a tecnologia? Tentativa-e-erro para construir equipamentos. E a metafísica? Alienar-se do mundo objetivo dos sentidos para delirar no mundo das emoções elevadas. Conceitos reificando (4) conceitos (outro “Ouroboros mental”) não explicam, mas ocultam, o censor.

No JOGO o censor é detectado, cercado, posto sob as lentes da mente humana analítica e minuciosamente dissecado até desaparecer.

 

(4) Reificação ou coisificação é uma operação mental típica do censor que consiste em transformar conceitos abstratos em objetos.

 

O UNIVERSO NUMA CASCA DE NOZ?

O universo não é um sistema, porque não tem partes isoladas se relacionando com outras partes e sistemas. A termodinâmica é irrelevante no contexto geral do universo objetivo visto como matéria espalhada pelo espaço por distâncias infinitas. Nenhuma fonte de temperatura compromete ou altera o universo. Na ausência de delimitações físicas no universo, as partículas atômicas, a entropia, a matéria-escura e os buracos negros são conceitos irracionais.

Nada nem ninguém escapa de uma região que não tem fronteiras. No espaço não há sistema aberto, fechado ou sistema isolado. Há apenas a distância entre dois e mais objetos e corpos, que podem estar em contato uns com os outros ou separados.

“Self Made Man” pelo escultor Bobbie Carlyle, “…é um homem esculpindo a si mesmo na pedra, esculpindo seu caráter, esculpindo seu futuro.” www.bobbiecarlylesculpture.com/SelfMadeMan.php

ESTAR PREPARADO É TUDO

O JOGO, sendo um ato voluntário, é a essência da liberdade. Ele ocorre em qualquer local e a qualquer momento, sem planejamento ou ensaios, sem árbitros e plateia, ou troféus e medalhas. A inteligência nativa e o censor sabem que nenhuma trapaça ou blefe são permitidos ou passam despercebidos. O JOGO flui como a água, seguindo os altos e baixos dos acontecimentos, moldando-se a cada situação e indício de emoções aflorando. Jamais force um desfecho ou interrompa um processo mental. Prefira observar a partida em andamento com olhos de águia e a paciência alegre dos macacos bonobos. No JOGO o monólogo interior cessa e as relações interpessoais finalmente serão um diálogo aberto, uma comunicação transparente e limpa de intenções proveitosa para ambos os lados.

Com a prática do JOGO você começará a reconhecer o censor nos seus interlocutores. Então será mais fácil evitar as agressões verbais implícitas e as manipulações psíquicas nas conversas e interações diárias. Menos atritos, mais produtividade.

O que está “em jogo” é a soberania da inteligência nativa. E ela será exercitada e fortalecida com o corpo em sinestesia se movendo em contemplação. Neste trabalho em progresso sobre si mesmo para se tornar a sua própria obra-prima, escolha as ferramentas e atividades coadjuvantes certas para esta tarefa que pode ser considerada o ofício dos ofícios, a arte das artes, o JOGO que abarca todos os jogos.

O que nos leva a outro grande jogo, o da arte marcial da paz interior.

Professor Cheng Manching (1902 – 1975) demonstrando a posição da “Mão de Donzela” – foto de Ken Van Sickle.

O TAI CHI CONTEMPLATIVO

Após três décadas de treinamento em várias artes marciais, uma delas mostrou ser um dos caminhos mais rápidos para a sinestesia e a contemplação. O Tai Chi Chuan, uma performance artística lúdica, foi a modalidade ideal que escolhi para unificar os sentidos.

Comecei a sua prática em 1995, aprendi as sequências das formas da escola Li e Yang, e vinte anos depois comecei a ensinar um estilo adaptado do Professor Cheng Manching. Hoje ministro um sistema pioneiro de TAI CHI CHUAN CONTEMPLATIVO que venho desenvolvendo com meus alunos e alunas. É a primeira forma de Tai Chi 100% “extra marcial” (mais informações sobre o Tai Chi Chuan exclusivo da Academia Imoto consulte os artigos correlatos neste blog).

 

O QUE SIGNIFICA “EXTRA MARCIAL”?

O conceito popular da “defesa pessoal” foi revisto. Bem como o termo “marcial”. Nas grandes cidades com armas de fogo ilegais nas ruas, a segurança individual é mais uma questão de evitar confusões do que lutar para se impor e reagir a assaltantes.

Para haver paz social é preciso paz interior. E tal qualidade só é possível quando vencemos a psicomaquia, o combate pela mente. Sem se libertar das garras do censor, qualquer habilidade militar armada e de mãos vazias continuará incompleta e sem contribuir com a segurança coletiva maior. E quando mal orientada, uma arte marcial irá causar mais problemas do que resolver conflitos.

No JOGO a legítima defesa faz parte da situação-chave da saúde, mas será necessário acrescentá-la em todas as outras.

Estamos nos relacionando diariamente com outras pessoas conhecidas e estranhas em casa e no ambiente onde trabalhamos, nos deslocamentos pelas ruas e visitas a repartições públicas e residências particulares. As chances de nos depararmos com pessoas mentalmente perturbadas, alteradas por drogas e disfunções orgânicas, com transtorno psicóticos, tendências assassinas e suicidas e em um “dia de fúria” são estatisticamente baixas (exceto para policiais e enfermeiros).

Porém, enquanto estar preparado para evitar e saber controlar tais ameaças reais requer extrema sensibilidade e estado de alerta, fomentar uma cultura de paranoia e retaliação será contraprodutivo e contraditório no JOGO. O medo e a agressão são justamente duas das emoções-chave a serem desestimuladas. Muitos concordam que a prevenção e o treinamento são importantes para a segurança, mas insuficientes se não atuarmos nas causas dos problemas. Ou, mais precisamente, na CAUSA.

Pintura do artista japonês Ryohei Hase

LUPUS EST HOMO HOMINI LUPUS

A sociedade mantém seus cidadãos sob a mira das armas para garantir a lei e a ordem. Mas enquanto seus membros portarem um ego inflado e inflamável, um censor invejoso e ressentido, o inimigo estará ao lado e na próxima esquina, pronto para atacar quando estivermos com a guarda baixa e indefesos.

Papas e presidentes escoltados por guarda-costas profissionais são atingidos por indivíduos destreinados e clinicamente diagnosticados como “normais” …

O fator surpresa do inesperado, na emboscada planejada ou nos encontros ao acaso, é parte da vida urbana atribulada onde o homem se tornou o lobo do próprio homem.

Fui entender mais profundamente estes aspectos extra marciais depois que conheci o Guided Chaos (doravante na sigla GC), uma arte de autodefesa criada nos EUA em 1978 por um policial na cidade de Nova York, o grande mestre John Perkins.

Um dos diferenciais do GC em relação a outros sistemas combativos é a influência que seu fundador teve dos princípios marciais e filosóficos do Tai Chi Chuan: Perkins conta que suas experiências e testes com dois mestres desta modalidade, Sifu Ron Hoffman (5), falecido em 2014, e seu mestre Waysun Liao (6), atualmente com 72 anos e na ativa, lhe deram os alicerces para criar seu sistema inovador de luta.

(5) www.houseoftaichi.com/sifu-hoffmann

(6) https://taichitaocenter.com

 

“Ron Hoffman… Descanse em paz…

Sifu Ron Hoffman morreu há dois dias… Ainda não sei a causa… [Ele tinha 66 anos]

Ele era um verdadeiro talento natural nas artes marciais … Reconhecido altamente pelo Grão-Mestre Yamashita e pelo renomado Waysun Liao…

Ron era um lutador formidável e professor de Tai Chi Chuan e era um verdadeiro guerreiro no melhor sentido de toda a sua vida …

Quando o conheci em 1971, eu tinha uma ideia muito vaga de como fazer Tai Chi Chuan… O Mestre Drew Miller me apresentou a Ron naquela época…

Ron me atingiu com um verdadeiro empurrão/soco de uma mão, aparentemente do nada… Voei para cima e para trás cerca de 3 metros de encontro a uma porta do armário e a minha mão quebrou a moldura de madeira no topo… Não senti nada até bater…

Em outro dia, perguntei a Ron como seria possível lutar com a minha envergadura curta… Ele disse que eu deveria usar todo o meu corpo como arma… Uma luz se acendeu na minha cabeça com o que Ron disse e, juntamente com o que aprendi com o mestre Miller e com o conselho do grão-mestre Liao, alguns elementos primários do Ki Chuan Do / Guided Chaos nasceram…

Ron era generoso e incansável em seus ensinamentos…

Ele fará muita falta…”

John Perkins

(Tradução da postagem publicada na página oficial do Guided Chaos no Facebook em 20 de dezembro de 2014)

 

“Durante esse período, Perkins foi apresentado pelo coordenador da Academia de Artes Marciais de Degerburg, em Chicago, ao mestre de Tai Chi, Waysun Liao. Mestre Liao, que provavelmente é um dos últimos mestres que entende e pode aplicar o Tai Chi para o combate, conseguiu demonstrar essa habilidade a Perkins. Essa profunda experiência reforçou as próprias descobertas de Perkins sobre o uso de energia interna versus externa (puramente muscular).”

(trecho traduzido do website oficial do Guided Chaos: https://guidedchaos.kartra.com/page/History)

 

SINCRONICIDADE OU SERENDIPIDADE?

Mestre Waysun Liao, por sua vez, teve influência do Professor Cheng Manching, um dos principais alunos de Yang Chengfu (o neto do patriarca Yang Luchan). E outro mestre cujos livros abriram as portas da percepção para aspectos quase inexplorados do Tai Chi Chuan, o sifu Willard Lamb, também é praticante do estilo das 37 Posturas idealizado pelo Prof. Cheng Manching.

Prof. Cheng Manching, o “Mestre das Cinco Excelências” (caligrafia, pintura, poesia, medicina e Tai Chi) foi o catalisador que inaugurou um portal para a entrada de um novo conhecimento e uma mudança de paradigma no Ocidente nos anos 1960. A sua ênfase na sutileza e na sensibilidade me ajudou a destilar um sistema extra marcial voltado para aprimoramento da contemplação cinética-sinestésica.

Esta série de artigos que serão compilados em um livro ajudarão os leitores nas suas investigações sobre a sinestesia e como despertá-la em qualquer atividade. Combine essa leitura com a prática do JOGO para reduzir e neutralizar o poder do censor no dia-a-dia, e do Tai Chi Contemplativo para forjar o “corpo fechado” e desenvolver a técnica do “efeito sinomotor”, e terá todos os instrumentos para uma vida sincera, segura e realizada.

Inicie suas experiências no JOGO, aprenda a estimular a sinestesia, aplique e teste esta união dos sentidos no Tai Chi Contemplativo e ingressará no mundo objetivo de onde jamais pensará retornar, porque o corpo e a sua inteligência nativa já estão lá, existindo nas suas três dimensões.

Se o destino trágico é desperdiçar uma existência, enriqueça e prolongue a sua vida estimulando a sua inteligência nativa de segundo a segundo imerso no mundo físico objetivo repleto de movimento.

“Desistir. Não desistir? Macarrão. Não macarrão? Você está muito preocupado com o que foi e será. Há um ditado que diz: ontem é história. Amanhã é mistério. Mas hoje é um presente. É por isso que é chamado de ‘presente’.” — Grão-mestre Oogway

A FILOSOFIA NO FILME KUNG-FU PANDA (7)

Os dois roteiristas desta animação revelaram “segredos” que raros artistas marciais sabem e conseguem transmitir. Se eles são praticantes avançados de artes marciais chinesas, não sei, mas sua narrativa reflete o meu entendimento da sinestesia e da contemplação cultivadas no Tai Chi.

No filme, Xiao Po Ping é um jovem urso panda desajeitado que adora artes marciais.

Xiao” (ou “Shao”, pequeno em mandarim) “Po” (alma rudimentar anímica) representa o animal, o inconsciente, o filhote desengonçado guiado pelos instintos, intuitivo, glutão e brincalhão. Com pais e um passado desconhecidos, Po foi adotado pelo Sr. Ping, um ganso cozinheiro, e os seus poderes latentes vão sendo represados no ambiente familiar e de trabalho à medida que vai crescendo. Po, resignado com o seu dever filial de administrar o restaurante do pai, faz das artes marciais a sua válvula de escape.

Po é fã dos “Cinco Furiosos”: Mestra Tigresa, Mestre Macaco, Mestre Garça, Mestra Víbora e Mestre Louva-a-Deus. Este quinteto representa os cinco sentidos do corpo: audição (Tigresa, alerta ao menor ruído), paladar (Macaco, cujos bolinhos Po adora), visão (Garça, olhos aguçados para voar), olfato (a língua das víboras funciona como narina para saborear odores) e tato (Louva-Deus, que na animação faz acupuntura segurando as agulhas com suas pequeninas e delicadas pinças). Estes mestres só se tornam poderosos quando lutam em equipe, na sinergia da sinestesia.

Mestre “Shifu” (um trocadilho com Mestre “Mestre”; “shifu”, ou “sifu”, “mestre”), representa o sexto e mais importante dos sentidos, a propriocepção, o sentido do equilíbrio motor e da capacidade de se mover rápido e com leveza interagindo com o mundo material objetivo e seus fenômenos físicos. A propriocepção possibilita e alavanca a sinestesia, justamente o papel de Mestre Shifu treinando os Cinco Furiosos. E, inadvertidamente, os roteiristas fizeram dele o CENSOR que passa a zombar, criticar e repreender as trapalhadas de Po que começa a expressar a mente humana na fase da adolescência.

Grão-mestre Oogway, uma tartaruga idosa, é o oráculo, a mentora e a amiga do Mestre Shifu. Oogway (trocadilho com as palavras em inglês “Out Of Game”, fora do jogo, e “way” para caminho, “Tao” em chinês) representa a maestria da inteligência nativa consolidada.

O vilão é Tai Lung, um outro grande felino (“Pode o leopardo alterar as suas pintas?” Jeremias 13:23), e representa o perigo de ser treinado por um censor complacente. As habilidades marciais que Tai Lung desenvolveu desde criança sob a tutela indulgente de Mestre Shifu serviram para aumentar proporcionalmente a sua vaidade e violência sem freios, uma vez que comportamentos que enaltecem o ego não são questionados.

Grão-mestre Oogway tem consciência de que Tai Lung está aguardando uma falha na segurança para fugir da prisão onde foi obrigado a trancafiá-lo depois de ser o único capaz de neutralizar seus ataques. Tai Lung era o favorito de Shifu e a sua grande decepção. Mestre Shifu permanecia ressentido com sua falha na educação deste filho adotivo e obrigado a admitir o erro de tê-lo escolhido como seu primeiro discípulo para herdar seus conhecimentos marciais e ser o lendário Grande Dragão Guerreiro. Nem Shifu, Tai Lung e Po têm a paz interior de Grão-mestre Oogway (este problema também foi abordado e criativamente solucionado em Kung-Fu Panda 2).

Grão-mestre Oogway em sua “ascensão dos imortais”, representa a entrada no Paraíso antes da morte, ou seja, uma vida longa e serena, em paz e harmonia com o mundo objetivo, digna de ser vivida do berço ao túmulo. Antes de sua partida, Oogway aconselha Shifu a aceitar Po, o candidato a Dragão Guerreiro que escolheu, como o seu sétimo aluno. O panda será a sua forma de redenção e sacrifício pelo bem comum.

Shifu finge aceitar, mas tentará de várias maneiras desestimular Po e forçá-lo a desistir mediante um regime torturante de treinamento. Esta sabotagem representa o censor causando dor e sofrimento para impedir a mente animal de obedecer e cumprir os desígnios da sabedoria da mente humana.

Voltando a Tai Lung. Especializado em atingir e afetar pontos nos meridianos de fluxo de energia vital (“Chi”) do corpo, Tai Lung representa assim as manipulações psicológicas aprendidas com Shifu, o censor, para intervir nos nervos e confundir o cérebro.

Po e Tai Lung anseiam pelo Pergaminho do Dragão guardado no Palácio de Jade.

Estes dois guerreiros em estágios distintos são aspectos da mesma mente animal obstinados em satisfazer os seus respectivos instintos básicos, apetite e aversão. E o pergaminho representa a “Sabedoria Ancestral” dos antepassados, a promessa guardada a sete chaves de um conhecimento superior capaz de magicamente libertar todo o potencial humano.

Tai Lung escapa da prisão para ir desafiar Po, o recém-escolhido Dragão Guerreiro. Tai Lung significa Grande (“Tai”) Dragão (“Lung”) mas o trocadilho em inglês com “lung” (pulmão) é um detalhe interessante. Podemos ficar um mês sem comer, uma semana sem beber água, mas apenas alguns minutos sem ar. Tai Lung controla a musculatura da respiração e o sistema imunológico, os impulsionadores da força bruta e do fator de cura rápida. Sua força descomunal foi refinada – e multiplicada – pelas técnicas de poder interno de Mestre Shifu. Ele derrota os Cinco Furiosos e Shifu sabe que não conseguirá pará-lo.

Tai Lung conta com a vitória fácil sobre o seu rival Po para ser o único merecedor de abrir o Pergaminho do Dragão e ler o segredo escondido nele.

Diante da tremenda ameaça de destruição promovida por Tai Lung, Shifu já havia abdicado seu papel de Censor enquanto treinava Po. A mente animal passava a ser guiada pelos propósitos altruístas da mente humana.

É quando ocorre a reviravolta na estória.

Se ainda não assistiu esta animação, prepare-se para mais spoilers

Na iminência do perigo, Shifu decide acelerar as habilidades físicas de Po, as quais estimulou usando a sua gula por bolinhos como motivação, e lhe entrega o Pergaminho do Dragão.

Quando Po abre o pergaminho, vê apenas o seu reflexo numa folha em branco.

Não há segredos, costumava avisar o Prof. Cheng Manching…

Mas voltando ao filme.

Desolado, Po retorna para o restaurante do pai, impotente para ajudar Mestre Shifu que ordena a todos para fugir do Vale da Paz porque enfrentará o furioso Tai Lung sozinho.

Essa parte representa os fracassos da Sabedoria Ancestral quando as experiências dos antepassados não foram compreendidas sob um ponto de vista racional.

O Sr. Ping tenta consolar e animar o filho deprimido e lhe explica qual é o ingrediente secreto da sua “sopa especial de macarrão com ingredientes secretos”: NADA! Nenhum tempero extra além do macarrão normal!

Graças às explicações racionais simples e diretas do pai cozinheiro (a Ciência), Po finalmente entende o pergaminho vazio. Quando conseguimos entender que tudo no mundo objetivo é original e que não precisa ser sofisticado com enfeites e elementos supérfluos, automaticamente experienciamos o universo e a vida como são, integralmente com todos os sentidos despertos. Po percebe que esta é a mensagem do Pergaminho do Dragão e volta confiante para enfrentar Tai Lung, o lado sombrio da força.

Esta parte representa a mente animal entrando em harmonia com a mente humana, sendo guiada pela razão da inteligência nativa e se movendo com os sentidos unidos. Esse é o pré-requisito para um artista marcial elevar suas habilidades em questão de segundos. Depois que se reconhece a condição animal, se libertar do censor e abandonar o seu labirinto será uma questão de jogar o JOGO das 8 Palavras-Chave por alguns meses, porque agora sente e sabe que o seu corpo jamais esteve separado do mundo objetivo.

Tai Lung toma o Pergaminho do Dragão de Mestre Shifu, mas sem o auxílio da inteligência nativa para decifrar o enigma do papel em branco, descarrega toda a sua frustração contra Po.

Po está indiferente ao bullying verbal de Tai Lung, que simula o papel do censor na tentativa de quebrá-lo psicologicamente. Po se apresenta como “O” Grande Panda Gordo, assumindo a responsabilidade de seu título de Grande Dragão Guerreiro. Esse reconhecimento da sua liberdade da condição animal, agora que é capaz de se ver destacado dela, aumenta ainda mais seu potencial marcial que, regido pela inteligência nativa, o torna imbatível.

No duelo contra Tai Lung, Po absorve e neutraliza os seus golpes de paralisação do sistema nervoso. Imune aos ataques dos instintos e sem um censor para destilar emoções e sentimentos conflitantes, Po descobre a técnica misteriosa com a qual Grão-mestre Oogway havia submetido Tai Lung.

Po aplica em Tai Lung o “Golpe do Dedo Wuxi” (“Wu”, vazio), que leva sua vítima para o “Mundo dos Espíritos”. Essa poderosa manobra marcial fictícia representa o discernimento intelectual da mente humana e sua inteligência nativa que coloca os instintos e as emoções no exílio e ostracismo do reino subjetivo dos conceitos espiritualistas onde serão anulados e inofensivos para si mesmos e os demais.

Como no mito da jornada do guerreiro, Po evoluiu para o próximo nível das artes marciais, o interno. No final Po ganha o respeito dos Cinco Furiosos e seu exemplo de superação motiva Shifu a investir seus esforços em encontrar a paz interior.

Esta é uma obra-prima de animação e uma excelente analogia para ilustrar a arte sinestésica contemplativa do Tai Chi Chuan, aliás, a especialidade de Grão-mestre Oogway, Mestre Shifu e, como veremos em Kung-fu Panda 2 e 3, do Dragão Guerreiro Po.

NA PARTE 8, A DESCRIÇÃO DE UMA SITUAÇÃO-CHAVE NO JOGO, A METÁFORA DO “WENDIGO” (O CENSOR DOS NATIVOS) E AINDA EXERCÍCIOS DA ARTE SINESTÉSICA DO TAI CHI CONTEMPLATIVO. CARPE VITAE!

Envie este artigo para seu círculo de amigos que também compartilharão com outros e assim sucessivamente, como na Teoria dos Seis Graus de Separação!

A CONTEMPLAÇÃO nos liberta de um mecanismo neurobiológico ultrapassado que já foi confundido com possessão, pecados e defeitos morais e depois com doenças orgânicas e transtornos psicológicos, quando era um atraso de 12 milissegundos no sistema nervoso evitando que os estímulos físicos captados pelos sentidos fossem analisados na íntegra pela mente livre da voz de um intermediador virtual interno.

Com o pensamento recebendo exclusivamente estímulos sensoriais puros, qualquer ação e decisão será um ato de altruísmo para com o próprio corpo e os demais.

Sem revoltas e revoluções, sem livros sagrados e manuais de autoajuda, sem líderes carismáticos e influenciadores de opinião…

Basta uma geração com a habilidade de CONTEMPLAR.

Então, todas as utopias serão superadas!

Comentários

  • Sandra Almeida
    responder

    Ótimo texto. É assim quem lê um texto esclarecedor, um livro interessante, etc, tem mais habilidades para viver na terceira idade com saúde

    19 de junho de 2020

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