O Efeito Mpemba das Artes Marciais

O Efeito Mpemba das Artes Marciais

Certos fenômenos naturais desafiam as nossas expectativas lógicas.
Um exemplo disso é o EFEITO MPEMBA.
Na Tanzânia, um rapaz cursando o segundo grau, cujo sobrenome é Mpemba, descobriu de forma acidental que a maneira mais rápida para se fazer gelo era a partir do resfriamento de uma porção de água morna.
Mas o interessante não é a sua explicação científica que ainda surpreende os cientistas.

https://hypescience.com/pesquisadores-da-china-e-eua-propoem-solucao-para-misterio-do-efeito-mpemba/


Mpemba fez a sua descoberta em 1969, com toda a teoria termodinâmica já consolidada e testada. Aristóteles, Francis Bacon e Descartes haviam observado o mesmo estranho fenômeno na água. Se aqueles primeiros filósofos tivessem explicado este paradoxo qual teria sido a consequência no meio científico?
 
Nem tudo é o que parece ser. Por trás dos fatos existem circunstâncias que não conhecemos e por isso nos levam a julgamentos equivocados. Nunca saberemos tudo de tudo. A "verdade" pode ser manipulada.
 
A humanidade ainda tem muito a aprender, uma vez que a maior parte das grandes invenções foram descobertas por acaso. As teorias vigentes estabelecidas como verdadeiras podem ruir a partir de alguma nova descoberta ou simplesmente pura SERENDIPIDADE!
 
Qual a relação disso com as artes marciais?

Temos teorias intuitivas e contraintuitivas.

Uma teoria intuitiva afirma que TODAS as artes marciais servem na defesa pessoal do seu praticante. Outra teoria também intuitiva que corrobora a anterior: TODOS os sistemas que se especializaram em defesa pessoal são úteis porque “é melhor saber e não precisar do que não saber nada...”
 
Ambas as teorias são endossadas pela mídia popular desde os manuais antigos, livros e revistas até o teatro, o cinema, a televisão e a internet, sempre mostrando inúmeros artistas marciais (os “mocinhos”, os “do bem”) aplicando suas proezas com sucesso (contra os “bandidos”, os “vilões”).

Teorias intuitivas acarretam decisões apressadas – e irracionais – por parte dos leigos.

Normalmente o leigo só se interessa em adquirir a capacidade de se defender diante de um agressor depois de ter sido ameaçado ou sofrido algum tipo de violência física. Equivale ao ditado “colocou a tranca na porta arrombada”. E uma vez que acredita que qualquer modalidade de arte marcial lhe servirá perfeitamente bem, assim como qualquer um dos vários sistemas especializados em defesa pessoal disponíveis, escolherá a modalidade e o local mais acessível para se matricular e iniciar os treinos.
Esse comportamento é recente, do início no século passado. Com a crescente facilidade de se adquirir e portar armas de fogo cada vez mais potentes, as milenares artes marciais com e sem armas brancas foram convertidas em lutas esportivas ou tradições esotéricas (vide a reforma Meiji no Japão e a Revolução dos Boxers na China, entre outras proibições de armas e duelos após o Renascentismo).
 
Foi somente na Segunda Guerra Mundial, com a criação dos primeiros “Comandos”, grupos de soldados treinados para espionagem e sabotagem atrás das linhas inimigas, que as antigas artes marciais recuperaram sua função original nas trincheiras do campo de batalha. Deste movimento marcial restrito ao meio militar nasceram as técnicas modernas de combate corpo-a-corpo (hand-to-hand) posteriormente divulgadas em sistemas de defesa pessoal policial e civil.
 
Atletas de lutas e veteranos de guerras passaram a se apresentar como autoridades em sistemas de defesa pessoal urbana vendendo cursos populares para as massas e oferecendo aulas particulares para os mais ricos.
 
E, como previsto, as modalidades desenvolvidas a partir daquelas primeiras metodologias de defesa pessoal não precisaram provar sua eficácia: ninguém questionou sua atualização e adaptação.
 
A teoria intuitiva de que as escolas marciais clássicas que viraram esportes também serviam na autodefesa dos homens e das mulheres comuns, consolidou uma crença geral em relação à defesa pessoal, a de que absolutamente quaisquer sistemas militares, paramilitares, competitivos ou tradicionais de artes marciais servem para a legítima defesa dos seus praticantes.
 
Alguns representantes dessas modalidades se apresentaram com mais sucesso e conquistaram muita fama, outros pegaram carona na onda dos novos ídolos do cinema de ação. Carisma e vitórias nos ringues, anedotas de brigas de rua e nas trincheiras foram o bastante para ninguém duvidar das teorias intuitivas de que qualquer disciplina marcial funciona bem na defesa pessoal bastando ensaiar bastante seus golpes e sequências coreografadas de movimentos até criar a falada “memória muscular” (outra teoria intuitiva que prega dez mil horas para a maestria em tudo).
 
Esses sistemas modernos focados em defesa pessoal que se especializaram na repetição de ataques traumáticos, no agarre e em técnicas de desarmes e submissão, foram aceitos incondicionalmente pelo leigo doutrinado nessas teorias intuitivas.
Felizmente basta uma teoria contraintuitiva para colocar certezas em xeque.
 
Explico.
 
Acredita-se que objetos são formados de átomos que se empilham e se ordenam. Essa associação aleatória de átomos mantém a sua estrutura molecular estável por um determinado período até se separar.
O perpétuo padrão de empilhar, ordenar e se espalhar.
Outra aparentemente indiscutível teoria intuitiva que aprendemos na Física, na Química e na Biologia ainda ensinada na escola e que será obedientemente transmitida por e para as próximas gerações de acadêmicos...
Ciência e tecnologia compartilham desse “entendimento básico” da matéria.
 
Hoje uma nova teoria de unificação propõe que os átomos são um único e contínuo fio de matéria e por isso tudo e todos estão interconectados entre si em vez de separados por partículas imaginárias. Informação suficiente para acelerar o desmoronamento natural dos castelos da Quântica e da Relatividade. 
 
Essa teoria contraintuitiva surge de uma abordagem criativa sobre um determinado problema, a qual eu chamo de “semente”.
 
Vamos rever os átomos com suas várias configurações moleculares conectados entre si como se fossem cordas entrançadas. Agora, visualize esse arranjo preenchendo todo o volume de um objeto lhe dando formato e localização, uma bola de canhão por exemplo. Como agrupar quatro dessas esferas na menor área? Digamos que a maneira mais fácil e rápida seja enfileirá-las. Um problema nesta organização seria a falta de aproveitamento do espaço. Alguém com um pouco mais de visão dimensional colocará três bolas na base formando um triângulo estável e sobre elas a quarta. A camada de baixo determinará a forma como se comportará cada bola de canhão que virá acima, mesmo se houver um número infinito dessas bolas.
Uma ótima ideia.
Intuitiva...


Agora imagine um terceiro tipo de configuração para aquelas quatro bolas. Em vez de alinhamento ou sobreposição, derreter e fundi-las em uma única esfera! Ou moldar o material derretido em argolas e fabricar correntes ou fazer um novelo de arame etc.
 
É ir além do pensar fora da caixa: é não ter nenhuma caixa. Essa subversão das regras estabelecidas é a “semente” que germina em alguma descoberta inusitada. E, também, a um novo paradoxo nas artes marciais ao trazer a seguinte hipótese à tona: menos de 1% delas serve realmente para a demanda específica da defesa pessoal.
 

DIFÍCIL DE ACEITAR OU DE ENTENDER?

Eis a grande característica de uma teoria contraintuitiva: mesmo explicada e aceita racionalmente, a maioria dos ouvintes será incapaz de compreendê-la de imediato.
Apenas uma minoria decifra essas contradições e uns poucos dentro dela conseguem derivar novos conhecimentos.
 
Para entender teorias contraintuitivas é necessário fazer as perguntas certas. Isso requer pensamento crítico, certa rebeldia e insatisfação com normas inventadas.
 
No caso das artes marciais comece questionando:
Como uma modalidade de luta confinada a um ringue cercado por convenções artificiais (categorias de peso, regulamentos, árbitros, cooperação entre os duelistas) poderia servir para lutar em qualquer ambiente e contra um ou vários inimigos provavelmente armados e nada passivos?
 
Como um sistema militar praticado por um soldado armado e equipado pode ser adaptado para o cidadão normal?
 
Se tanto os esportes de combate quanto os sistemas militares limitam seu praticante a um constante regime de condicionamento físico, a se manter na faixa etária entre 18 e 45 anos e operando rigidamente dentro de um contexto com regras e armas pré-definidas, como servirão para pessoas comuns sem o mesmo alto nível de atletismo e arsenal?
 
Como uma mulher idosa ou uma adolescente poderiam se proteger fisicamente de um lutador usando tais sistemas esportivos e outros amplamente conhecidos de suposta defesa pessoal?
 
É sabido que um praticante jovem e saudável com mais de dez anos de treinamento irá suplantar seu técnico em força, rapidez, agilidade e resistência.
É sabido que ninguém vencerá a velhice.
É sabido que ninguém estará sempre na sua melhor forma e preparado com uma pistola ou faca nas mãos.
 
Agressões físicas caóticas equivalem aos crimes de tentativa de assassinato e são proibidas nos esportes para evitar lesões permanentes ou causar intencional e gratuitamente a morte. Essa impossibilidade de replicar a violência real durante o treinamento nas academias já desqualifica 99,9% das modalidades marciais, não importando sua origem étnica ou notoriedade.
 
Considere que as formas de lutar mais comuns são com os punhos fechados para socar, agarrar e derrubar, bem como para empunhar e golpear com instrumentos contundentes e afiados. Isso não significa que golpes de nocaute ou de quedas com chaves e estrangulamentos são insuperáveis. Seria continuar a aceitar aquelas teorias intuitivas e correr o sério risco de apostar a sua segurança e a de terceiros praticando sistemas cuja função é entreter e não proteger. 
 
Estou explicando tudo isso para que você compreenda a extraordinária originalidade com que raros homens abordaram este problema e com os quais aprendo.
 
Faça como eles e comece por formular as questões certas.
 
Lembre-se: todo treinamento é autodidata.
 
Quem plantou dez sementes para colher onze teve prejuízo. Mas quem plantou uma e colheu nove investiu bem. E nas artes marciais vale o mesmo preceito de ouro da máxima eficiência com mínimo esforço.
 
Como o jovem Mpemba ignorou as teorias intuitivas da termodinâmica, outros também tiveram insights inesperados com exercícios e experimentos raramente cogitados no fechado mundo das artes marciais.
 
Só o pensamento contraintuitivo abre a mente para alternativas de treinamentos não ortodoxos que dão acesso a níveis de habilidade quase desconhecidos pela maioria dos artistas marciais.

"...Como triunfar sobre algo cuja existência você se recusa a reconhecer." — Anton Chigurh no livro “Onde os Fracos Não Têm Vez”